terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Comentários da entrevista de Monsenhor Fellay à “Nouvelles de France”



Monsenhor Fellay é o superior da Fraternidade fundada por Monsenhor Lefebvre. Ele volta à Nouvelles de France para falar sobre as tentativas de aproximação da Fraternidade com Roma que marcaram o pontificado de Bento XVI.

«Nouvelles de France» reivindica para si a definição de «liberal-conservadora».

Monsenhor, o senhor apreciaria o fato de que o último grande ato do pontificado de Bento XVI pudesse ser a reintegração da Fraternidade Sacerdotal São Pio X?

Por um breve instante, pensei que, anunciando sua demissão, Bento XVI teria um último gesto para conosco como Papa. Não obstante, vejo muito difícil que isto possa ser possível. Haverá que esperar provavelmente o próximo Papa. Inclusive lhe direi, a risco de surpreendê-lo, que haja problemas mais importantes para a Igreja que o da Fraternidade, e de certa maneira, ao se solucionar, o problema da Fraternidade se solucionará.

Note-se que Monsenhor Fellay não rechaça os termos “apreciaria” e “reintegração” e não exclui um gesto de Bento XVI neste sentido, mesmo que ache difícil que este gesto aconteça. O gesto para a reintegração terá que esperar provavelmente até o seguinte Papa para que aconteça. Está implícito que Monsenhor Fellay “apreciaria” tal gesto.

Qual foi o quid da advertência de Monsenhor Lefebvre em 1989?

“O que pode parecer uma concessão não é na realidade senão uma manobra para tirar de nós o maior número de fiéis. Com esta perspectiva é que parecem conceder, cada vez um pouco mais e ir mais longe. Mas há que se convencer absolutamente aos fiéis de que se trata de uma manobra, que é um perigo colocar-se nas mãos dos bispos conciliares e de Roma modernista. É o maior perigo que ameaça. Se temos lutado durante 20 anos para evitar os erros conciliares, não é para colocarmos agora nas mãos de quem os pratica”.

Ou de seu desejo de não querer ter nada a ver com a Igreja conciliar?

Somos “suspensos a divinis” pela Igreja Conciliar e desde a Igreja Conciliar, da qual não queremos ter parte. (Julho 29 de 1976, Reflexões sobre a Suspensão a divinis) “Nós não pertencemos a esta religião. Nós pertencemos a religião antiga, a religião Católica, não a esta religião universal como é chamada agora. Já não é a religião Católica...” (Sermão de 29 de Junho de 1976).

“Estaria muito feliz de ser excomungado desta Igreja Conciliar... É uma Igreja que eu não reconheço. Eu pertenço a Igreja Católica”. (Minute 30 Julho de 1976)
A qual foi também a posição da FSSPX em seu conjunto:

“Nós nunca quisemos pertencer a este sistema que se qualifica a si mesmo de Igreja Conciliar. Ser excomungado por um decreto de Vossa Eminência... não seria mais que a prova irrefutável de que não o somos. Não pedimos nada melhor que ser declarados ex-communione... excluídos da comunhão ímpia com os infiéis”. (Carta aberta ao Cardeal Gantin, 6 de Julho de 1988)

Monsenhor Fellay então considera que a FSSPX é “um problema para a Igreja”. Ele repete a nova tendência oficial da FSSPX de não distinguir a Igreja Conciliar da Igreja de Cristo.

Alguns dizem que o senhor deseja que Roma reconheça o rito ordinário como ilícito. Poderia esclarecer-nos este ponto?

Estamos muito conscientes que é muito difícil pedir as autoridades uma condenação da nova missa. Na realidade, se o que deve ser corrigido o for, seria um grande passo.

“O Novus Ordo Missae, mesmo quando é dito com piedade e respeito pelas regras litúrgicas... está impregnado com o espírito do Protestantismo. Leva em si um veneno perigoso para a fé”. Carta aberta aos Católicos Perplexos, Monsenhor Lefebvre.

Como pode ser corrigido algo que é intrinsicamente venenoso? Há mesmo de dois meses, Monsenhor Fellay qualificou a Missa do Novus Ordo como má. Devemos coabitar com o mal? É moralmente lícito fazê-lo?

Como é isso?

Isso pode ser realizado por uma instrução da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Afinal de contas não é tão complicado. Eu penso que haja trocas importantes a efetuar a causa das graves e perigosas deficiências que fazem este rito ser condenável. A Igreja pode efetuar muito bem essas importantes correções sem ficar mal ou perder sua autoridade. Mas atualmente noto a oposição de uma parte dos bispos católicos às legítimas ordens do papa de corrigir, no cânon da missa, a tradução do “pro multis” por “por muitos” e não “por todos”, tradução falsa que encontramos em muitos idiomas.

“...o Novus Ordo Missae – considerando-se os novos elementos amplamente suscetíveis a muitas interpretações diferentes que estão nela subentendidas ou implícitas – se afasta de modo surpreendente, tanto em conjunto quanto nos detalhes, da teologia católica da Santa Missa tal qual formulada na sessão 20 do Concílio de Trento...

É evidente que o novo Ordo Missae renuncia de fato ser a expressão da doutrina que definiu o Concílio de Trento como de fé divina e católica, ainda que a consciência católica permanece vinculada para sempre a esta doutrina.

Faria falta um trabalho mais amplo para estabelecer uma avaliação completa dos obstáculos, perigos e elementos destrutores, tanto espiritual como psicologicamente, que contém o novo rito.
(CARDENAL OTTAVIANI, BREVE EXAMENE CRÍTICO DO N.O.M.)

Como é o que os Cardeais Ottaviani e Bacci fizeram eco a Monsenhor Lefebvre e De Castro Mayer, ao falarem da nova missa como “um distanciamento impressionante da teologia católica” e que inclusive uma “avaliação” de seus erros necessitaria um “trabalho mais amplo”, mas para Monsenhor Fellay “afinal de contas não é tão complicado” corrigir essa missa?

Deseja voltar sobre o Vaticano II?

No que concerne ao Vaticano II, como na missa, nós estimamos que seja necessário clarificar e corrigir certo número de pontos que são errôneos ou que conduzem ao erro. Não obstante, não esperamos que Roma condene o Vaticano II em pouco tempo. Ela pode recordar a Verdade, corrigir discretamente os erros salvaguardando sua autoridade. Contudo, nós pensamos que a Fraternidade fornece sua pedra ao edifício do Senhor denunciando certos pontos litigiosos.

“Cremos poder afirmar, atendo-nos à crítica interna e externa do Vaticano II, ou seja, analisando os textos e estudando os pormenores deste concílio, que este, ao dar as costas à tradição e romper com a Igreja do passado, é um Concílio cismático.” (Le Figaro, 4 de agosto de 1976).

“A Igreja que afirma tais erros é tanto cismática como herética. Esta Igreja Conciliar portanto, não é católica. (Julho 29 de 1976, Reflexões sobre a Suspensão a Divinis)

Esta Reforma, por ter surgido do liberalismo e do modernismo, está completamente empeçonhada, surge da heresia e acaba na heresia, ainda que todos os seus atos não sejam formalmente heréticos. É, pois, impossível para todo o católico consciente e fiel adotar esta reforma e submeter-se a ela de qualquer modo que seja. A única atitude de fidelidade à Igreja e à doutrina católica, para bem da nossa salvação, é uma negativa categórica à aceitação da Reforma. (Declaração de 21 de Novembro de 1974)

Portanto, Monsenhor Fellay vê somente “certo número de pontos que são, ou erros ou que conduzem ao erro” e crê que podem ser corrigidos “discretamente”?

Concretamente, o senhor sabe bem que suas reinvindicações não serão satisfeitas de um dia para o outro.

Certamente, mas progressivamente o serão, eu penso. Chegará um momento onde a situação será aceitável e poderemos estar de acordo, ainda que hoje mesmo não parece ser o caso.

A única base para um acordo é essa:

Interrogá-los-ei no plano doutrinal: Estão de acordo com as grandes encíclicas de todos os papas que vos precederam? Estão de acordo com a Quanta Cura de Pio IX, Immortale Dei e Libertas de Leão XIII, Pascendi de Pio X, Quas Primas de Pio XI, Humani Generis de Pio XII? Estão em plena comunhão com esses papas e com suas afirmações? Aceitais ainda o juramento anti-modernista? São a favor do reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo? Se não aceitam a doutrina de seus predecessores, é inútil falar. Enquanto não tiverem aceitado reformar o Concílio considerando a doutrina desses papas, não há diálogo possível. É inútil dialogar.” (Fideliter, nº 66, novembro de 1988, p. 12-13)

O senhor ainda está de acordo com esta declaração, Sua Excelência Monsenhor Fellay?

O senhor teve uma entrevista com Bento XVI em seus primeiros meses de pontificado. Poderia dizer-nos qual foi seu sentimento em tal momento?

Posso dizer que me encontrei com um Papa que tinha um desejo sincero de realizar a unidade da Igreja, mesmo se não chegamos a estar de acordo. Mas creia-me que peço por ele todos os dias.

Qual unidade? A única unidade meritória é a unidade na fé. Bento XVI nunca deixou de expressar sua fé e seu desejo que a Igreja abrace o espírito do Concílio que “sai da heresia e desemboca na heresia”. Devemos aplaudir este “desejo sincero” ou devemos evitá-lo?

Qual foi, para o senhor, o ato mais importante de seu pontificado?

Eu penso que sem lugar para dúvidas, o ato mais importante foi a publicação do Motu Proprio Summorum Pontificum que lembra os sacerdotes do mundo inteiro a liberdade de celebrar a missa tradicional. Fê-lo, há que dizer, com valor, porque tinha oposições. Eu penso que este ato trará frutos muito positivos em longo prazo.

Art. 1. O Missal Romano promulgado por Paulo VI deve ser considerado como a expressão ordinária da lei da oração (lex orandi) da Igreja Católica de Rito Romano, enquanto que o Missal Romano promulgado por São Pio V e publicado novamente pelo Beato João XXIII como a expressão extraordinária da lei da oração ( lex orandi) e em razão de seu venerável e antigo uso goze da devida honra. Estas duas expressões da lei da oração (lex orandi) da Igreja de maneira nenhuma levam a uma divisão na lei da oração (lex orandi ) da Igreja, pois são dois usos do único Rito Romano. Summorum Pontificum

Como podem sair frutos positivos de um ato pontifical que oficialmente mescla o rito tridentino da Santa Missa com o venenoso Novus Ordo? Quaisquer que sejam as aparências de Tradição em qualquer de seus frutos, não estarão sempre presentes os perigos de uma intoxicação perigosa?
Não é perigoso e subversivo louvar incondicionalmente ao Papa por publicar tal ato sem sublinhar o veneno que contém?

Igualmente, Monsenhor Fellay expressa sua gratidão ao mesmo Papa por suprimir os efeitos das sanções canônicas aplicadas a seus bispos depois das consagrações de 1988. (Comunicado de Menzigen, 11 de Fevereiro de 2013). (Erroneamente traduzido ao inglês, já que o texto original em francês disse: supprimer les effets des sanctions canoniques portées contre ses évêques, à la suite des sacres de 1988, e a tradução em inglês: to do away with the canonical sanctions that had been imposed on its bishops following their consecration in 1988). Não se acreditou sempre que estas sanções são inválidas e portanto se requer uma anulação e não um mero levantamente de seus efeitos?

(THE RECUSANT)
Traduzido de: http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2013/02/comentarios-de-la-entrevista-de.html

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

"Onde não há ódio à heresia, não há santidade. "


A deslealdade suprema para com Deus é a heresia!

É o pecado dos pecados, a mais repugnante das coisas que Deus reprova neste mundo enfermo.

No entanto, quão pouco entendemos de suaodiosidade excessiva! É a poluição da verdade de Deus, o que é a pior de todas as impurezas.

Porém, como somos quase indiferentes a ela! Nós a fitamos e permanecemos calmos. Encostamos nela e não trememos. Misturamo-nos com seus fautores e não temos medo.

Nós a vemos tocar as coisas santas e não percebemos o sacrilégio.

Inalamos seu odor e não mostramosqualquer sinal de detestação ou desgosto.

Alguns de nós afetamos ter sua amizade; e alguns até buscam atenuar as culpas dela.

Nós não amamos a Deus o bastante para termos raiva pela glória d'Ele. Não amamos os homens o bastante para sermos caridosamente sinceros pelas almas deles.

Tendo perdido o tato, o paladar, a visão e todos os sentidos das coisas celestiais,somos capazes de armar tenda no meio dessa praga odienta, em tranqüilidade imperturbável, reconciliados com sua repulsividade, e não sem declarações em que nos gabamos de admiração liberal, talvez até com uma demonstração solícita de simpatias tolerantes [por seus fautores].

Por que estamos tão, tão abaixo dos santos antigos, e mesmo dos apóstolos modernos destes últimos tempos, na abundância de nossas conversões?

Porque não temos a antiga firmeza! Falta-nos o velho espírito da Igreja, o velho gênio eclesiástico.

Nossa caridade é insincera, pois não é severa; e não é persuasiva, pois é insincera. Carecemos de devoção pela verdade como verdade, como verdade de Deus.

Nosso zelo pelas almas é débil, pois não temos zelo pela honra de Deus. Agimos como se Deus ficasse lisonjeado com conversões, ao invés de serem almas que tremem, resgatadas por um excesso de misericórdia.

Dizemos aos homens meia-verdade, a metade que calha melhor à nossa própria pusilanimidade e aos preconceitos deles; e depois nos admiramos de tão poucos se converterem, e que, desses poucos, tantos apostatem.

Somos tão fracos a ponto de nos surpreendermos de que nossa meia-verdade não teve tanto sucesso quanto a verdade inteira de Deus.

Onde não há ódio à heresia, não há santidade.

Um homem, que poderia ser um apóstolo,torna-se uma úlcera na Igreja por falta de justa indignação.

(Pe. Frederick William FABER [1814-1863], The Precious Blood, or: The Price of Our Salvation [O Preciosíssimo Sangue, ou: O Preço de Nossa Salvação], 1860, pp. 314-316, tradução de Felipe Coelho).

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Os Mártires da Revolução Francesa




"...É um elenco tão vasto e tão admirável que hesitamos em destacar alguns dos episódios mais comoventes. não será injusto dar sequer a impressão de que queremos fixar um palmarès, um elenco de vencedores, quando em todas as páginas desse livro escrito com sangue brilham o heroísmo e a santidade? Padres, religiosos, religiosas, simples leigos, homens e mulheres, todas as condições sociais à mistura - mas certamente a maioria gente humilde, dente do povo -, foram às dezenas, às centenas, os que preferiam morrer a abjurar. Como escolher entre eles?

Vemos surgir, mais tarde tornadas ilustres pelo teatro e pelo cinema, as dezesseisCarmelitas de Compiègne, que morreram a 17 de julho de 1794, dez dias antes da queda de Robespierre. Presas por terem continuado a viver juntas após a supressão do seu convento, levadas perante o tribunal revolucionário, uma delas teve a presença de espírito bastante para perguntar a Fourquier-Tinville o que é que ele entendia pelo termo "fanatismo" com que as brindava. E que, tendo ele respondido: "O vosso fanatismo é a vossa tola paixão pelas estúpidas práticas religiosas", replicou: "Ó irmãs, ouviste bem? Somos condenadas pela nossa religião...Que felicidade morrer por nosso Deus!" Exatamente: com essas palavras, o acusador acabava de fazer mártires. Ao pé do cadafalso, elas renovaram os votos e entoaram o Veni Cretor, que só deixou de se ouvir quando a última foi morta...Página grandiosa, digna de ser exaltada, como foi, por Gertrud von le Fort e por Geoge Bernanos.

Mas terão sido menos sublimes essas sacramentinas de Bollène que, antes de morrer, agradeceram aos juízes e aos algozes, e uma das quais beijou o cadafalso antes de lá subir? Ou as ursulinas de Valenciennes, que cataram o Te Deum e rezaram pelos carrascos? Ou as Irmãs da Caridade de Arras, que chegaram à guilhotina cingidas nos Terços? E outras tantas que é impossível evocar sem emoção...

Entre os homens, quantos foram igualmente heroicos! Os beneditinos da Secção dos Gravilliers, que declararam com firmeza nunca terem deixado de celebrar a Missa clandestinamente... O padre Imbert, dominicano de Castres, que, condenado a morte, se recusou a subir à carroça, dizendo: "O meu Senhor Jesus ia a pé ao Calvário; reclamo para mim ir a pé"...Os recoletos e os carmelitas de Arras, que marcharam para o suplício cantando as Vésperas dos Defuntos...

No clero secular, as figuras exemplares são inúmeras. Aqui vemos o Cormaux, "o santo da Bretanha", que, no decurso do interrogatório, se recusa a dissimular a mínima parcela da verdade, fornecendo ele próprio argumentos aos acusadores... E van Cleemputte, que, se adianta a declarar que nunca deixou de fazer um apostolado clandestino... E Noel Pinot, que, conduzido para a morte, vestido de alva e casula por derrisão, recita ao pé do cadafalso o Introibo ad altare Dei da sua última Missa... E o encantador padre Salignac-Fénelon, fundador e diretor da Obra dos Padres Savonianos: condenado, ainda prega do alto da carroça que o leva ao suplício...

A lista seria interminável! E ainda teríamos de acrescentar dezenas de leigos que, com toda a evidência, morreram como testemunhas da Fé. Em Lyon, é o comerciante Auroze, que à pergunta "Es fanático?", responde: "Serei o que quiseres, mas o que sou é católico", e por isso foi condenado. Em Anjou, é um senhor chamado De Valfons, que, no início do interrogatório para identificação, acrescenta ao sobrenome os adjetivos "Católico, Apostólico, Romano"... Em Seine-et-Oise, é Marie Langlois, mocinha de vinte e dois anos, criada de lavoura, que, denunciada pelo pároco constitucional, troça visivelmente dos juízes e de suas perguntas ocas... Noutro lugar, é Elisabeth Minet, que reivindica altivamente a responsabilidade de uma enorme falta: durante todo o Terror, nunca deixou de distribuir estampas de Nossa Senhora...Alhures, é Geneviève Goyon, costureira de setenta e seis anos, que se recusa a entregar dois dominicanos que tem escondidos em sua casa, e morre com eles...

Já de há muito a História registrou a eficácia sobrenatural do martírio, o seu misterioso poder de resgate."

Daniel Rops, A Igreja das Revoluções (I). Quadrante, São Paulo, 2003, Pag. 70, 71.

A Renovação Carismática "Católica"




Como havíamos prometido, segue mais um artigo contra a RCC.

Nosso objetivo é provar que esse movimento é de origem herética e protestante que se infiltrou dentro da Igreja e tem causado rastros de destruição.

Queremos, com a graça de Deus, demonstrar que os católicos não podem participar dessas reuniões por serem contra a Doutrina Imutável da Igreja.

Se alguém, leigo ou clérigo, não concordar com os artigos aqui publicados, pedimos para que apresentem seus argumentos em favor desta seita. Mostrem e provem, com argumentos sólidos, da Sagrada Escritura, do Magistério, dos doutores e teólogos a catolicidade desse movimento. Se não o puderem provam que agem movidos somente por sentimentalismo e romantismo barato. Não tem direito a crédito.  

Que Nossa Senhora, que esmaga sob Seus Pés a serpente das heresias, livre Minas Gerais e todo o Brasil da RCC.

***

Pe. Scott Gardner, FSSPX

 Fruto do Concílio Vaticano II, Semente de Destruição.
Introdução:
  Batizados no "Espírito"
            "Batizado no Espírito", "Oração em Línguas", "O Dom da Profecia", e um "Relacionamento Pessoal com Jesus Cristo" são todas expressões muito em voga e indispensáveis no vocabulário da assim chamada "Renovação Carismática Católica" (RCC) , um movimento cujas origens se deve a um retiro sem nenhum acompanhamento realizado em 1967 por alguns estudantes da Universidade de Duquesne em Pittsburg (USA) . Por volta de 1990, o movimento já contava com cerca de 72 milhões de seguidores no mundo inteiro e organizações oficiais em mais de 120 países.

            Um crescimento tão rápido aqui e no exterior, juntamente com o quase completo abandono de práticas e crenças genuinamente católicas, bem como modo de se expressar, tem sido motivo de preocupação para os Católicos já por um bom espaço de tempo. À luz  do trigésimo aniversário da RCC ocorrido no ano de 1997, uma análise mais profunda  de suas práticas, crenças e idéias vem bem a calhar.
            O trecho abaixo  tirado da literatura carismática, diz respeito a um dos carro-chefes da RCC, "Batismo no Espírito", uma "Experiência de fé", na qual uma pessoa "libera" as graças recebidas no Batismo, Confirmação e Sagrada Eucaristia e assim experimenta a presença de Deus de um modo profundamente pessoal. Só por aí já podemos antecipar a visão e a compreensão dos Sacramentos mais comuns para os seguidores desse movimento:
"Cada Paróquia possui um certo número de grupos com sua própria visão, propósito e área de serviço. Ninguém se sente incomodado ou perturbado pelos outros movimentos tais como, Grupos do Rosário, Legião de Maria, Sociedade de São Vicente ou qualquer outra organização paroquial - a lista aqui poderia ser bem maior. Portanto, por que toda essa polêmica em torno da Renovação Carismática?  A verdade é que a RCC não é apenas uma questão de encontros de oração semanal. O seu coração reside  no Batismo no Espírito Santo - uma graça de Deus a qual deveria ser parte da experiência normal de todo cristão -  Através desse batismo, todo mundo: clero e leigos, homens e mulheres, jovens e velhos, negros e brancos, ricos e pobres - todos sem distinção, têm a oportunidade de dar o seu sim a Deus. Mas é ainda muito mais do que isso. Ao fazermos nossa adesão pessoal  a Jesus Cristo, nós estamos dizendo "sim" à presença  poderosa do Espírito Santo e aos seus dons: os carismas. Muitos de nós fracassamos em fazer isso  quando iniciamos o processo da Iniciação Cristã. Mas agora todos nós podemos fazê-lo, basta permitirmos que o Espírito Santo transforme-nos desde o mais profundo íntimo do nosso ser, equipando-nos para o serviço à Igreja e ao mundo." (Charles Whitehead- Charismatic Renewal- A Challenge 1993).
             Irregularidades Doutrinárias
              As implicações de tal declaração não deveriam deixar perplexo ninguém que tem um mínimo de conhecimento do Catecismo. Do ponto de vista ortodoxo e para dar ao autor o benefício da dúvida, poderíamos considerar tal declaração como uma referência ao Sacramento da Confirmação, o Sacramento pelo qual o Espírito Santo vem até nós de modo particularmente especial para nos transformar em verdadeiros cristãos e perfeitos soldados de Cristo.
            Que fosse tal pensamento relativo ao caráter sacramental, poderíamos ainda assim suspeitar de que o que eles pretendem sugerir, seria na verdade, um "oitavo sacramento" necessário para completar os outros sete. Mas muito ao contrário, os carismáticos negam qualquer clara conexão entre o "Batismo no Espírito"e os sacramentos Católicos, uma vez que  "ritos sacramentais e experiência religiosa são partes complementares da iniciação Cristã básica. E uma vez que esses aspectos da "Iniciação Cristã" são complementares, os Carismáticos não vêem nenhum motivo pelo qual não-católicos e até não-cristãos sejam excluídos da oportunidade de experimentar  ou receber os tais carismas, aqui se referindo é claro, às extraordinárias manifestações do Espírito Santo, as quais auxiliaram na expansão da Igreja Primitiva e desapareceram pouco tempo depois da Era Apostólica.
            De fato, eles sustentam que a natureza complementar das duas partes da "Iniciação Cristã" faz com que ela se torne algo facilmente reversível, ou seja, que uma pessoa não batizada pode experimentar esse "batismo no Espírito"e se tornar ipso facto, um cristão autêntico, precisando  dos "ritos sacramentais" meramente para "completar"  sua "iniciação cristã". O status dessas pessoas teoricamente seria o mesmo daqueles católicos que tendo recebido os Sacramentos, ainda esperam por uma consciente manifestação das graças invisíveis". É óbvio que muitas pessoas, mesmo os grandes Santos, nunca receberam consolações notáveis em sua Fé e muito menos manifestações extraordinárias do Espírito Santo. Portanto dizer  que uma pessoa que experimentou esse "batismo no Espírito" está de tal forma unida a Deus como ( ou até mais que) um católico piedoso e batizado que nunca vivenciou tal experiência é claramente um absurdo."
            A raiz desse absurdo é o falso entendimento de que uma experiência emocional sempre acompanha a concessão de uma graça- ou que pelo menos faz parte da "liberação da graça". Muito ao contrário, no que diz respeito à graça sacramental, frequentemente a  única indicação sensível da concessão da graça é o sinal sacramental por si mesmo.
            O Catecismo do Concílio de Trento define um sacramento como "um sinal visível de uma graça invisível, instituído para a nossa justificação". É portanto um sinal, cujo efeito é o que significa. Uma vez que todos os sinais visíveis de todos os sacramentos são completamente objetivos e estabelecidos pela Igreja de acordo com o mandamento ou inspiração de Nosso Senhor Jesus Cristo, os sentimentos pessoais de um indivíduo não tem nada a ver com a conferência da graça pelos sacramentos ( naturalmente, desde que não haja nenhuma intenção contrária).
             Objetivo: Expor as Idéias Básicas do Movimento Carismático e sua incompatibilidade com o Catolicismo.
              O "Batismo no Espírito Santo",  é o componente primário da RCC, e juntamente com a maioria dos demais, reside em falsas concepções sobre a graça, experiência e relacionamento mútuo, como é sustentado por seus seguidores. Os ítens principais da plataforma carismática, juntamente com os falsos princípios nos quais eles se apoiam, serão examinados um por um à luz da Doutrina Católica. Alguns de seus erros como o fenomenalismo, gnosticismo, ecumenismo, protestantismo e antiquarianismo ou arqueologismo, já foram tratados pelo Magistério da Igreja com profundidade. A eclesiologia defeituosa da RCC, bem como erros maiores no tocante à graça, o livre-arbítrio e os sacramentos merecerão um tratamento consideravelmente mais profundo.
            Portanto ficará claro que, apesar do entusiasmo dos modernos homens da Igreja por esse movimento, a RCC é fundamentalmente um movimento não-católico irreconciliável com 20 séculos de Magistério Católico. Depois de um breve exame de suas raízes, a inteira árvore será examinada ramo por ramo e todos os seus frutos amargos expostos, levando em consideração o mandamento apostólico: "Examinai tudo: abraçai o que é bom"( I Tess.5.21).

            Breve História do Movimento
            Raízes Protestantes
              Apesar de muitos carismáticos tentarem atribuir suas chamadas "manifestações do Espírito" `a ininterrupta Tradição Apostólica, eles acabam sempre por fracassar nesse intento. Alguns chegam ainda a sustentar que o fenômeno cessou por causa  de uma atitude "sufocante e burocratizante "por parte da Hierarquia Católica. Apesar disso, o fato da existência desses carismas não ser conhecido  depois da era Apostólica, é algo que fica claramente demonstrado por essa declaração de Santo Agostinho, feita no quarto século:
 "Quem em nossos dias, espera que aqueles a quem são impostas as mãos para que recebam o Espírito Santo, devem portanto falar em línguas , saiba que esses sinais foram necessários para aquele tempo. Pois eles foram dados com o significado de que o Espírito seria derramado sobre os homens de todas as línguas, para demonstrar que o Evangelho de Deus seria proclamado em todas as línguas existentes sobre a Terra. Portanto o que aconteceu, aconteceu com esse significado e passou"
              Ao descartarmos a atribuição dos carismas à  Tradição Apostólica , devemos portanto olhar para outras direções para compreendermos a origem desse fenômeno moderno. Muitos escritores atribuem  o início do moderno  Pentecostalismo a John Wesley, o famoso ministro ex-Anglicano e fundador do Metodismo no século 18.
            O próprio Wesley, filho de um ministro Anglicano, cresceu tentando "espiritualizar" a  então ainda "muito-católica" religião Anglicana, ou seja, tentando livrar o Anglicanismo de todo o seu "ranço"católico. Ele enfatizava a necessidade de uma piedade pessoal extremamente emocional, um "relacionamento pessoal"com Deus. Um dia, depois de um período convalescendo de uma longa enfermidade, Wesley sentiu uma "sufocante" manifestação do "Espírito" e percebeu que todas as suas antigas obras religiosas não passavam de tolices. Assim "cheio do poder", batizado no Espírito, tendo recebido aquilo que ele chamava de "segunda-bênção", ele foi capaz de sair e conquistar os corações de gelo das massas de denominação Anglicana dando-lhes um sentido mais profundo da presença de Deus através de seu "Método" de "Encontros de Oração".
            O paralelo entre o nascimento do Metodismo e as orígens da RCC se tornam ainda mais evidentes quando consideramos o segundo passo no desenvolvimento do primeiro. Wesley começou o seu movimento como uma espécie de suplemento para os serviços dominicais da Igreja Anglicana. Os encontros de oração eram realizados durante a semana, normalmente com a supervisão de algum membro do clero. Mas logo logo as autoridades Anglicanas começaram a ficar apreensivas com o rumo que os Metodistas estavam tomando e assim recusaram-se a designar mais elementos do clero para acompanhá-los. Como consequência, Wesley e seu movimento romperam com a hierarquia Anglicana, fundando sua própria igreja, sob sua própria autoridade, embora nunca tendo renunciado ao seu "sacerdócio anglicano". O número de apóstatas Católicos, cuja apostasia_ formal ou material_ é devida à RCC sem dúvida é significante, pois qualquer um sabe que uma igreja pentecostal ou carismática é formada quase em sua totalidade por apóstatas católicos.
            O Pentecostalismo propriamente dito, teve início com o movimento Revivalista ou de Reavivamento, o qual desovou entre outras, a seita do reverendo Charles Parham em Topeka, Kansas por volta do ano de 1900. Os Católicos Carismáticos atribuem o início do "Derramamento do Espírito" nos tempos modernos a essa seita herética. Uma breve sinopse da história dessa seita pode ser encontrada no livro de William Whalen chamado "Minorias Religiosas na América":

O aparecimento da glossolalia ( falar em línguas) foi registrado em 1901. Charles Parham, um pregador do movimento da Santidade, andava desanimado com sua própria aridez espiritual. Ele alugou então uma mansão que mais parecia um "elefante branco" em Topeka, Kansas, e ali começou uma escola bíblica com cerca de 40 alunos. Juntos eles começaram uma espécie de curso intensivo das Escrituras e chegaram à conclusão de que falar em línguas era o sinal de que um cristão havia recebido o batismo no Espírito Santo. Às 7 horas da tarde, numa véspera de Ano Novo, uma de suas alunas, Agnes N. Ozmen, começava a reunir o grupo para orar e quando foram-lhe impostas as mãos, ela começou a orar em línguas. Dentro de poucos dias, muitos outros a seguiram na experiência.
              Pahram passou os cinco anos seguintes levando uma vida de pregador intinerante antes de abrir outra escola bíblica, desta vez em Houston no Texas. Um de seus alunos, um ministro negro chamado W. J Seymore, levou a mensagem do "evangelho-pleno" à Los Angeles. Assim o movimento de Reavivamento, com apenas 3 anos de existência na Califórnia já atraía pessoas de tudo quanto é parte do país e essas pessoas se encarregaram de fundar e  espalhar o Pentecostalismo na maioria das grandes cidades dos Estados Unidos, bem como em muitos países da Europa. As antigas igrejas do movimento revivalista recusavam-se a enfatizar a necessidade de se falar em línguas, mas rapidamente dezenas de denominações pentecostais  independentes se organizaram, dando origem entre outras , às chamadas "assembléias de Deus".
Logo após esse firme estabelecimento em solo protestante, o Pentecostalismo começou a crescer rapidamente. De qualquer modo, sempre foi visto pelos escritores católicos como uma nova seita herética, nunca como "igreja-irmã". A revolução entrou na Igreja com a mudança de atitude proclamada pelo Vaticano II, uma abertura das janelas para o mundo, o que significou também uma abertura para todas as religiões do mundo- sob a guia de seu Príncipe e fundador, Satanás.
Transplante Católico. 
              Em 1967, durante aqueles primeiros tempos de euforia pós-Vaticano II, uma época agitada  pelo frenesi ecumênico e apostasia generalisada, alguns estudantes da Universidade de Duquesne em Pittsburg começaram a se expor às influências pentecostais devido à sua aridez espiritual. Eles estavam com "inveja" das "vidas modificadas" de seus muitos amigos protestantes e decidiram então orar pedindo graças idênticas. Uma espécie de retiro de fim de semana foi a chave providencial para os seus questionamentos. Várias pessoas se aproximaram de vários ministros protestantes, leigos e grupos de oração protestantes; e todos receberam o tal "batismo no Espírito" depois de terem tido mãos heréticas impostas sobre eles em oração.
            A importância dessa ação não deve ser subestimada. Esses Católicos se submeteram a um rito não-católico de caráter quase sacramental_ obviamente uma troça do Sacramento da Confirmação_ e toda a vibração emocional proporcionada por esse pecado ( objetivamente falando, naturalmente) convenceu-os da santidade da inteira experiência. Eles saíram dali como "Católicos Carismáticos" e sua influência se espalhou igual fogo selvagem por todo o país- primeiramente nos campus de colégios e depois pelo mundo inteiro.
            Se existe um bom argumento para se ouvir a Igreja, esse é um deles. A Igreja  por quase 2000 anos, sempre alertou seus filhos para manterem distância de "cultos" heréticos, porque ela sabe muito bem as consequências de tal pecado, tanto para os indivíduos envolvidos como para o Corpo Místico como um todo. Apesar disso a RCC não só admite como impertubavelmente louva, suas raízes ecumênicas e protestantes!
            A conclusão tácita é que a Igreja- O Corpo de Cristo- perdeu a maior parte da Fé, enquanto o Espírito Santo mantinha essa mesma fé dentro do Protestantismo. Portanto, os protestantes é que estariam restaurando à Igreja o seu patrimônio perdido. Esse é um posicionamento tão falso quanto audacioso, o que claramente cai em contradição com dois Dogmas de Fé: extra ecclesiam nulla salus = fora da Igreja não há salvação, e a indefectibilidade da Igreja. Ambos serão tratados minuciosamente mais a seguir.
            Hoje em dia, praticamente em cada diocese existe um órgão oficial da RCC. Existem grupos de oração carismática, seminários, convenções, retiros, etc. Tudo isso espalhado pelo país e pelo mundo inteiro. Nenhum nível da hierarquia está livre do contingente carismático, e eles são numerosos também entre o clero- especialmente entre o clero regular ou secular. Como procuraremos demonstrar, nem sequer Roma está imune à influência dos Carismáticos.

            Firme Estabelecimento no Solo da Igreja
          As Autoridades
              Apesar das  várias tentativas dos Carismáticos de tomar endossamentos pessoais de altos membros da Hierarquia e transformá-los em aprovações oficiais da Igreja, tais aprovações no entanto nunca existiram. Os Papas Paulo VI e João Paulo II receberam os Carismáticos várias vezes em audiência pública e falou deles em seus pronunciamentos em várias ocasiões; como em 1990 quando o Conselho Pontifícial para Leigos reconheceu a Fraternidade Católica de Comunidades de Aliança ( uma organização Carismática internacional), como uma associação privada de leigos. Apesar disso, nenhum pronunciamento oficial foi feito sobre a RCC. Na verdade, os Carismáticos, como todos os Católicos liberais, tendem a atribuir uma pseudo-infalibilidade a pronunciamentos papais não-oficiais quando esses são a seu favor, ao mesmo tempo que descartam completamente condenações oficiais  e até mesmo dogmáticas relativas a muitas de suas práticas e crenças nada ortodoxas.
            Apesar disso, podemos dizer que não existe escassez de adeptos do Movimento Carismático em nenhum nível da hierarquia ou do clero. Diáconos, padres, bispos, cardeais e papas tem sido e são grandes entusiastas pela causa Carismática, isso quando não são membros diretos da RCC. Que esse povo, supostamente bem treinado em Ciências Sagradas, se deixe levar pelo sensacionalismo de um movimento sem nenhuma base doutrinária para suas crencas e práticas, não deixa de ser algo digno de reprovação.
            Os "estudos quase- oficiais" da Conferência Nacional de Bispos Católicos nunca foram aceitos por aquele mesmo órgão como sendo posições oficiais. Eles foram aceitos apenas como "Diretrizes Pastorais" para dioceses individuais.
              A conclusão do relatório de 1969 recomenda que se permita que o  movimento se desenvolva sob supervisão episcopal e com a participação sacerdotal.
            É interessante notar que, aqui os bispos aceitam sem questionar uma das mais perigosas afirmações da RCC, ou seja, que o fenômeno atual, o qual se parece com a descrição dos verdadeiros carismas contidas no Novo Testamento, são verdadeiros carismas simplesmente devido a esta semelhança e que o Espírito Santo seria o autor do fenômeno atual, simplesmente em virtude do fato de que Ele era o mesmo autor dos verdadeiros carismas há quase 2000 anos atrás. Infelizmente para seu próprio prejuízo , bem como da inteira Igreja, eles sequer cogitam na possibilidade de que esse fenômeno extraordinário ( o qual a RCC está tentando transformar em ordinário) possa ser apenas mais um engano do demônio, o qual não se importa de que tais pessoas até orem mais levados pela empolgação e pelo sensacionalismo, se depois tudo isso contribuir para levá-los direto para o Inferno.
Em 1975, os Bispos dos Estados Unidos lançaram um documento chamado "Declaração sobre a Renovação Carismática Católica", o qual se definia como  um documento "de cunho pastoral no tom e no conteúdo" e não como um "estudo exaustivo". Esse documento reconhece alguns dos perigos inerentes ao Movimento: elistismo, fundamentalismo bíblico, exagero na importância dos dons, indiscriminado ecumenismo e as assim chamadas "pequenas comunidades de fé".
            Provavelmente o mais famoso advogado da RCC entre a hierarquia foi Sua Eminência, Cardeal Jozef Suenens, Arcebispo Emérito de Malines-Bruxelas, o qual, incidentalmente, foi uma das vozes liberais mais proeminentes durante o Concílio Vaticano II. No ano subsequente à sua aposentadoria em 1979, Cardeal Suenens passou o tempo todo viajando e escrevendo incessantemente em apoio à RCC. Por volta do 25 aniversário da RCC, Cardeal Suenens escreveu o seguinte trecho em seu artigo comemorativo:

"Os cristãos de hoje têm que redescobrir o coração da mensagem cristã; eles foram suficientemente "sacramentalizados"; mas não foram suficientemente "evangelizados". Temos agora que encarar a tarefa de redescobrir e explicar o que realmente faz um cristão. Devemos ajudar os cristãos a se tornarem cada vez mais e continuamente cientes de sua fé e a vivê-la de um modo mais pessoal. Muitos devem portanto trocar aquele cristianismo sociológico ou herdado, por uma vida de fé mais plena e ativa, baseada em uma decisão pessoal e abraçada com completa consciência."
              Como a maioria das declarações dos liberais, esta também é ambígua o bastante para ser interpretada de modo ortodoxo; todavia, a terminologia nitidamente protestante é algo que não passa despercebido por ninguém.
            O discurso do Papa João Paulo II, por ocasião do 6 aniversário da RCC em 1987, acabou por endossar de modo inacreditável a idéia tácita mencionada pelos Bispos americanos (a qual mostraremos que tem suas raízes no fenomenalismo) de que o Movimento se encaixa no "Espírito do Vaticano II", bem como sua constante preocupação com a vinda do Novo Milênio:

"O vigor e os frutos da Renovação certamente atestam a poderosa presença do Espírito Santo na Igreja durante esses anos que se seguiram ao Concílio Vaticano II. Graças ao Espírito, a Igreja mantém constantemente sua juventude e vitalidade. E a Renovação Carismática é uma eloquente manifestação dessa vitalidade nos dias de hoje, uma vigorosa afirmação do que "o Espírito está dizendo às Igrejas"(Apoc. 2.7), na medida que vamos nos aproximando do fim do segundo milênio."
              De qualquer modo, podemos dizer que um dos frutos positivos da total crise de autoridade na qual os católicos de hoje encontram-se imersos, é a sede saudável por conhecer mais sobre  a história da Igreja e estudar os documentos de seu Magistério. A sabedoria comprovada dos Padres e Doutores da Igreja, Prelados genuinamente guiados pelo Espírito Santo, é de uma profundidade bem clara e de uma poderosa acuracidade. O surgimento de seitas "espiritualistas" é algo que já havia acontecido antes na história da Igreja, e um breve exame de como os modernos homens de Igreja lidam com elas, serve-nos para obter um melhor entendimento da situação atual.

            Paralelos Históricos.
              Não podemos negar que extraordinárias manifestações  do Espírito Santo ocorreram durante a Era Apostólica e que foram mais do que úteis para ajudar a difundir a Fé Cristã pelos quatro cantos do mundo conhecido até então. Qualquer um pode constatar isso, lendo os Atos dos Apóstolos. Tais manifestações tinham propósitos específicos: espalhar a mensagem do Evangelho a ouvintes de diferentes idiomas (ex: São Pedro no dia de Pentecostes) ou provar a credibilidade ou santidade do pregador.
            Todavia, é também inquestionável que esses fenômenos extraordinários duraram consideravelmente pouco e desapareceram logo após a Era Apostólica. A Igreja tinha então atingido uma universalidade moral e havia se estabelecido de tal maneira que essas manifestações já não eram mais nem úteis ou necessárias.
            Apesar disso, de vez em quando, pipocavam ali e acolá alguns grupinhos "espiritualistas" que ganhavam notoriedade  devido às suas estranhas crenças e práticas, mas que no fim acabavam por receber a condenação da Igreja. As  principais entre essas seitas, foram:  a dos "Joaquinitas", seguidores de Joaquim de Fiore por volta do século 12, os Fraticelli que eram alguns franciscanos cismáticos do século 13 e 14, e os Molinistas ou ( Quietistas) por volta do século 17.
            Joaquim de Fiore ( 1132-1202), foi um abade da Ordem Cistercience especializado no estudo das Sagradas Escrituras. Todavia ele tinha uma mente muito voltada para o misticismo e passou anos dissecando as Escrituras, buscando descobrir significados escondidos nas entrelinhas das menores passagens. ( Esta prática de se ler nas entrelinhas "guiados pelo Espírito", é a marca registrada dos carismáticos dos tempos modernos). No final de sua vida, depois de completar sua obra, Joaquim submeteu seus escritos ao julgamento de Roma.
            Em seus escritos, ele expunha erros concernentes à Santíssima Trindade, embora mais tarde  tenha se retratado depois que tais erros foram anatematizados pelo Quarto Concílio de Latrão. Todavia, sua idéia mística a respeito da História era o item mais problemático. Joaquim sustentava que a história do mundo tinha sido dividida em três fases distintas, cada uma correspondente a uma pessoa da S.S Trindade. Assim, a primeira fase da história da humanidade teria sido marcada pelo governo majestoso de Deus-Pai, a segunda, que são os nossos tempos, pela Sabedoria do Filho e de sua Igreja, e a terceira, ainda por vir, pelo Espírito Santo num derramamento de amor universal e com o desaparecimento de todas as religiões formais em favor de um mundo governado apenas pelo espírito do Evangelho. Todo esse ensinamento foi condenado pelo Papa Alexandre IV logo após a morte de Joaquim no século 13.
          A similaridade entre esse antigo ensinamento e o constante jargão Carismático sobre "uma nova era do Espírito", é algo que dispensa comentários. Pelo contrário, mais preocupante é a fascinação do Santo Padre com a chegada do Novo Milênio. Ao falar dos preparativos para o Grande Jubileu do ano 2000, o Papa João Paulo II designou o ano de 1998 como o "Ano do Espírito":
             "A Igreja não poderia se preparar para o Novo Milênio de outro modo senão pelo Espírito Santo. O que foi conquistado pelo poder do Espírito Santo na plenitude dos tempos, apenas pelo poder do Espírito é que poderá emergir agora da memória da Igreja".
 E o Santo Padre vai ainda mais adiante:

"A tarefa primordial na preparação para o Jubileu incluirá uma renovada apreciação da presença e da atividade do Espírito Santo... [ cita sinais de como isso já está ocorrendo]... maior atenção à voz do Espírito através da aceitação dos carismas e da promoção dos leigos, um compromisso mais profundo com a causa da unidade dos cristãos, e um crescente interesse pelo diálogo com outras religiões e com a cultura contemporãnea."
            Essas declarações surpreendentes revelam claramente como o atual Papa associa  Ecumenismo, Secularismo e  Laicismo com o Novo Milênio e com a obra do Espírito Santo. A similaridade entre esse tipo de raciocínio e o pensamento de Joaquim de Fiori [ aquele de que o Espírito, através de um derramamento de amor universal, unirá todas as religiões formais no espírito do Evangelho]é alarmante demais, pra não dizer o pior.
            Um dos principais seguidores das idéias de Joaquim, foi um  grupo "espiritualista", formado por alguns frades da Ordem  Franciscana. Os descendentes diretos desse grupo, formaram um século depois da morte de Joaquim, o grupo dos Fraticelli, e suas interpretações pessoais do Evangelho renderam-lhes os maiores problemas tanto dentro da Ordem Franciscana como com o Papa. No final, eles acabaram dizendo que a Igreja era corrupta e carnal, em contraste com a sua própria espiritualidade e que  eles eram os únicos verdadeiros seguidores do Evangelho. Eles acabaram sendo excomungados pelo Papa João XXII em 1318.
            É interessante notar que os Carismáticos também costumam fazer essa distinção entre  "Católicos plenos" e os "outros", ao fazerem declarações como essa de uma tal Betty Nunez:
"Eu não estou dizendo que os "outros"católicos não crêem, mas quando você é renovado pelo Espírito, sua fé se torna viva".
            Agora, dando à Senhora Nunez todo o benefício da dúvida, tal declaração soa como um insulto a qualquer Católico não-Carismático, pois seria o mesmo que dizer que temos uma fé morta ao passo que os Carismáticos possuem uma fé viva. Esse tipo de declaração infeliz é muito parecida  com a dos Fraticelli.
            Miguel de Molinos (1628-1696) confundiu completamente o ensinamento Católico sobre a graça e a natureza. Apesar dele acreditar que a graça supõe a natureza, ele ensinava que o único caminho para a santificação era o completo abandono da alma às ações de Deus (aqui no caso, o Espírito Santo). Novamente, isso soa como ortodoxo a princípio, ou seja,  quando ouvido num contexto ortodoxo. Todavia contém um erro grave. Molinos sustentava que a alma deveria ficar completamente passiva à ação de Deus. Mas seu quarto princípio, também condenado, sustentava todos os demais: "A atividade natural é inimiga da Graça, impedindo a ação de Deus e a verdadeira perfeição, porque Deus deseja operar em nós, sem nós". Aqui não se trata de conformarmos nosso livre-arbítrio, ou seja, nossa vontade, à Vontade Divina e sim de aniquilarmos nossa própria vontade, substituindo-a pela Vontade Divina. Como consequência disso, depois que ocorre esse "aniquilamento", a pessoa fica isenta de qualquer responsabilidade pelos seus atos, já que ela se tornou de certa forma, um autômato.
            A pergunta mais comum entre os Carismáticos costuma ser: "É Jesus Cristo o Senhor da sua vida?" Naturalmente que todo Católico deseja que Jesus Cristo seja não apenas o "Rei e Centro de todos os corações"como também do mundo inteiro. Aliás, o Reino Social de Cristo Rei deveria ser uma de nossas bandeiras de luta. É importante todavia compreender a diferença entre essas duas posições. Os Católicos querem conformar sua vontade de forma que ela esteja de acordo com a Vontade Divina. As conquistas naturais são plenas de perfeição apenas quando guiadas e ordenadas para o sobrenatural. Já os Molinistas ( e Carismáticos) querem aniquilar seu próprio livre-arbítrio, tornando-se vasos completamente passivos sob a ação da Vontade Divina. A seguinte passagem é um trecho típico da literatura carismática a esse respeito:

Jesus aprendeu a vontade do Pai, vivendo num relacionamento pessoal diário com Ele. Será que eu estou crescendo na prática da Presença de Deus através do meu dia-a-dia?  Eu faço as coisas ou progrido de um modo compulsivo ou como resposta? Será que meu ouvido interior está treinado para ouvir, buscando ouvir o Espírito Santo e seguir sua doce moção? Seguir o Espírito é como pisar na corrente de um rio, permitindo que ela lhe dê a direção. ( Patti Harrison-"Jesus Lord of my life")
            Qualquer um pode imaginar sendo esta a disposição na qual um Carismático se encontra antes de  ter uma manifestação física do "espírito". Afinal o que mais poderia proporcionar o clima ideal para que pessoas ordinárias sejam capazes de contorcer-se, saracotear, lançando-se em uma verdadeira algazarra dentro da Igreja? Uma das duas explicações parece ser o mais provável: que o sujeito realmente deseja - talvez até inconscientemente- realizar essa performance por causa da dinâmica de grupo ou histeria coletiva, ou que seu estado de relaxamento deixa-o completamente aberto e passivo a mercê de uma verdadeira manifestação do "espírito"- naturalmente que aqui não se refere ao Espírito Santo! Pois como sempre foi ensinado pela Igreja , o ato de se falar uma língua estranha que ninguém compreende é um sinal clássico de possessão diabólica.

Continua...
Autor:Scott Gardner, do Seminário São Tomás de Aquino, Winona, Minnesota-EUA- Publicado pela THE ANGELUS PRESS- Março de 1998.
Fonte: http://permanencia.org.br/drupal/node/2235