sexta-feira, 28 de junho de 2013

O elogio da pobreza


“Quem se consagra à contemplação das coisas divinas está mais liberado das coisas do mundo do que quem se dedica à contemplação da verdade filosófica”

Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q. 6.



Sidney Silveira



Os bens deste mundo são de três tipos, diz Santo Tomás na Suma Teológica[1]: riquezas, prazeres e honrarias. À primeira vista, desprezá-los parece absurdo, pois as riquezas proporcionam bem-estar material; os prazeres, bem-estar psicológico; e as honrarias, bem-estar espiritual, na medida em que representam o pagamento de um débito de justiça — obviamente, quando e se são feitas ou recebidas na justa medida e nas ocasiões devidas, para não descambar em adulação e vanglória. A propósito, todos esses bens podem ser contemplados nas perspectivas material e espiritual; assim, há a riqueza da alma e a do dinheiro ou das propriedades; há os prazeres do corpo e os do espírito; há as honrarias das comendas, diplomas e galardões e as de quem honra a Deus e ao próximo no silêncio das orações diárias e no seguimento dos preceitos.

Sem dúvida, na alma do homem justo a fruição equânime dos aspectos material e espiritual desses bens é possível, mas dificílima mesmo neste caso, pois, devido à maldita herança do pecado original, “o justo cai sete vezes ao dia” (Prov. XXIV, 16). Por isso, considerando que a utilidade espiritual é preferível à material (utilitas spiritualis præfertur temporali utilitati[2]), e que, como a experiência demonstra de forma insofismável, a posse de tais bens traz consigo o risco de fazer o homem sucumbir a vícios e enganos tremendos, anda melhor quem voluntariamente abre mão deles. Estamos no âmbito, pois, dos conselhos evangélicos: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (Mt. XIX, 21); “É mais fácil um camelo passar por uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus” (Mt. XIX, 23).

Pois bem. Com ensinamentos como estes, extraídos da Sagrada Escritura, os cristãos transformaram a pobreza em virtude. E aqui não se trata apenas da pobreza habitual, ou seja, aquela de quem despreza de coração os bens materiais, não obstante acidentalmente os possua, mas também da pobreza atual, a que consiste em se desprender de fato — por livre e espontânea vontade — das coisas materiais por amor a Deus. É o que demonstra lindamente o Aquinate no trecho doContra Impugnantes Dei cultum et religionem em que menciona as passagens do Evangelho acima, e também outras. Em resumo, deixar tudo por Deus é obra de máxima perfeição (ergo perfectissimum opus)[3].

Mas também não se trata aqui da pobreza absoluta, como a que foi defendida pelos franciscanos espirituais do século XIII e posteriormente condenada pelo Magistério da Igreja, mas de uma pobreza que não abre mão das necessidades básicas do dia de hoje, confiando porém na Providência Divina quanto aos bens futuros — ou seja, quanto ao provimento das necessidades do amanhã. “Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com estas coisas. Ora, vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o reino dos céus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado em acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá as suas preocupações” (Mt. VI, 31-34).

Em síntese, é perigoso possuir as coisas do mundo (periculosum est res mundi possidere[4]), e por um motivo muito simples: porque a elas se ata fortemente o espírito, chegando às vezes ao ponto de brutalizar o homem, de fazê-lo praticar maldades e injustiças sem tamanho. Na verdade estamos continuamente expostos a tais riscos, mas em grau muito maior quando o bem-estar material aumenta e as riquezas acumulam-se. Daí dizer São João Crisóstomo, à guisa de exemplo, o seguinte a propósito dos discípulos de Jesus: “Em que prejudicou aos apóstolos a escassez de bens temporais? Não passaram eles a vida com fome, sede e pouca roupa, de modo que se esclareceram a si mesmos com este comportamento e foram vistos como exemplares de maravilhosa grandeza?[5]

No mesmo trecho do Contra Impugnantes acima aludido (a questão 6) — um dos mais belos, ponderados e consistentes elogios à pobreza evangélica de toda a história do Cristianismo —, Santo Tomás de Aquino observa que quem se consagra à contemplação das coisas divinas está mais liberado das coisas do mundo do que quem se dedica à contemplação filosófica (qui vacat contemplationi divinae, magis oportet esse a rebus mundanis liberum, quam eos qui contemplationi philosophicae vacabant[6]). Assim, se houve filósofos louváveis por rechaçar as riquezas e o burburinho do mundo para dedicar-se ao estudo da verdade, com muito mais razão se deve elogiar quem recusa a riqueza única e exclusivamente com o objetivo de contemplar a Deus, causa das causas, sumo amável, verdade infinita, Ser omniperfeito, bondade pura, razão de ser de todas as coisas. Ora, não há como contemplar a realidade divina sem o desprezo do mundo (contemptus mundi), sem dizer “não” às riquezas e seduções, pois “quem se apega às coisas deste mundo fazendo delas o fim da existência, assim como a razão e a regra de seus atos, afasta-se totalmente dos bens espirituais”[7]. Este é portanto, o sentido da virtude da pobreza cristã: conversão a Deus e aversão às coisas que nos afastam d’Ele. É recusar firmemente tudo o que possa levar à excessiva solicitude com os bens temporais.

Do ponto de vista da fé, tão maravilhosa é esta renúncia das riquezas que ela terá no céu um prêmio especial: o poder de julgar. Afirma a propósito Cristo em resposta a uma indagação de Simão (grifos nossos!):

“Pedro então, tomando a palavra, disse-lhe: Eis que deixamos tudo para te seguir. Que haverá então para nós? Respondeu Jesus: Em verdade vos digo: no dia da renovação do mundo, quando o Filho do Homem estiver sentado no trono da glória, vós, que me haveis seguido, estareis sentados em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que por minha causa deixar irmãos, irmãs, pai, mãe, mulher, filhos, terras ou casa receberá o cêntuplo e possuirá a vida eterna” (Mt. XIX, 27-29).

Comentando esta passagem, o Aquinate nos remete à Glosa, que diz: “Quem deixar todas as riquezas para seguir o Senhor será juiz, ao passo que quem usou com retidão das coisas que possuía legitimamente neste mundo estará entre os julgados”[8]. Em vista destas palavras, o Doutor Comum reafirma a excelência da pobreza voluntária atual, e sua absoluta superioridade com relação à pobreza habitual, nos termos acima descritos. Não à-toa Deus dará à pobreza atual o magnífico prêmio (præmium excellens) de julgar, porque, segundo a Sua justiça, a grandiosidade da recompensa é proporcional à do mérito.

Referindo-se à passagem da Escritura em que Cristo afirma “Quem não renunciar a tudo o que possui não pode ser meu discípulo” (Lc. XIV, 33)”, a Glosa faz uma distinção preciosa — devidamente aproveitada por Santo Tomás em seu elogio à pobreza: “Renunciar é obra de quem, usando devidamente de suas posses materiais, com o espírito aspira à vida eterna. Abandonar é próprio apenas dos perfeitos, ou seja, de quem aspira à vida eterna despreocupando-se simultaneamente de todas as coisas temporais”[9]. Assim, os que se abandonam à Divina Providência terão especial preferência, por exemplo, em relação aos que com os seus bens socorrem aos pobres[10].

Antes de encerrar este breve texto vale dizer que, nas passagens acima mencionadas desta obra de combate que é o Contra Impugnantes, não se trata de conhecimento especulativo, apenas, mas também prático:Santo Tomás conheceu a pobreza habitual e a atual, pois, sendo de família riquíssima (seu pai era adido do rei), abandonou tudo para seguir o caminho da perfeição cristã, levando à risca o conselho evangélico com o voto de pobreza que põe freio à concupiscência dos olhos. Pobreza material e espiritual a um só tempo, por meio da qual a simplicidade se torna uma preciosa conquista da alma, que dá às costas a luxos desnecessários e frívolos e concentra as energias psíquicas nas coisas verdadeiramente importantes.

É evidente que o conselho evangélico da pobreza é dificílimo de praticar em qualquer época. Mas na atual é quase impossível: a nossa é a era do consumo desenfreado estimulado pela propaganda, que exacerba o afã de possuir bens e de fazer sucesso — num mundo totalmente descristianizado em que os verbos querer e possuir são conjugados como uma espécie de ladainha infernal de caminhantes rumo ao abismo.

Um mundo em que a Igreja se abstém de ensinar as verdades da fé em sua integridade, razão pela qual parece zelosamente preparar o curto reinado do Anticristo.



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1- Tomás de Aquino, I-II, q. 108, art. 4, resp.

2- Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q. 6, nº. 3.

3- Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q. 6, nº. 3.

4- Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q. 6, nº. 3.

5- São João Crisóstomo, Nemo laeditur nisi a seipso, nº 4.

6-Tomás de Aquino, Contra Impugnantes, q. 6, nº. 3

7-Tomás de Aquino, I-II, q. 108, art. 4, resp.

8-Glosa margin.

9- Glosa margin.

10- Nas palavras do Angélico, “ergo patet quod praeferendi sunt qui omnia sua dimittunt, illis qui de fructu possessionum quas retinent pauperibus dividunt”. Tomás de Aquino Contra Impugnantes, q. 6, nº 3.

Santa Missa: tesouro sacratíssimo, tesouro sem preço!

Um texto belíssimo de São Leonardo de Porto-Maurício, sobre as excelências da Santa Missa, seus frutos e a riqueza desperdiçada por muitos, entre religiosos e leigos. Sacerdotes inclusos. O texto é longo, eu sei, mas vale a pena "perder" um pouco de tempo com esse leitura, porque o tempo da eternidade no Inferno é... maior! 

 

PARA EXCITAR TODOS OS FIÉIS A ASSISTIR TODOS OS DIAS À SANTA MISSA



Aqueles que não têm gosto para assistir à Santa Missa, invocam inúmeros pretextos para escusar sua tibieza. Podeis vê-los absolvidos por seus negócios. Cheios de solicitude e zelo pelo progresso de seus miseráveis interesses. Para isso toda fadiga é leve, e não há dificuldade que os retenha. Ao contrário, para assistir à Santa Missa, que é o mais importante dos tesouros, ei-los cheios de frieza e preguiça, invocando centenas de escusas frívolas: seus inúmeros cuidados, sua saúde delicada, os embaraços da família, a falta de tempo, o excesso de ocupações. Em suma, se a Santa Madre Igreja não os obrigasse sob pena de pecado a assistir à Santa Missa ao menos, aos domingos e dias santificados, sabe DEUS se visitariam jamais uma igreja ou dobrariam o joelho ante um altar!

Ó vergonha, ó profunda miséria de nossos tempos infelizes, que estamos longe do fervor dos primeiros cristãos, os quais, como já disse, assistiam todo dia à Santa Missa e recebiam o Pão dos Anjos. No entanto, não lhes faltavam afazeres, cuidados, ocupações. Mas a própria Santa Missa era para eles um auxílio para bem dirigir seus negócios e interesses espirituais e temporais.

Mundo obcecado! Quando abrirás os olhos para reconhecer tão palpável ilusão? Vamos! Despertemos todos! E que nossa devoção preferida, a mais amada, seja assistir diariamente à Santa Missa e nela comungar, pelo menos espiritualmente.

Para alcançar tão santo resultado, não sei de meio mais eficaz que o exemplo, pois é uma máxima indiscutível que todos “vivimus ab exemplo”: isto é, que tudo que vemos feito por nossos semelhantes se nos torna acessível e fácil. Não poderás fazer, dizia a si próprio Santo Agostinho, o que fazem estes e aqueles? “Tu non poteris qudo isti et istae”?

Apresentarei, portanto, alguns exemplos interessantes de pessoas diversas, e por este meio espero convencer todo o mundo. 

EXEMPLOS PARA AS PESSOAS DE CATEGORIA:


Uma mulher, que entra na Igreja com um traje espaventoso, atrai todos os olhares, e queira DEUS não atraia também os corações, arrebatando ao SENHOR as devidas adorações!

Não é preciso excitar estas pessoas a assistir todos os dias à Santa Missa; já são demais levadas a frequentar as igrejas. O importante será fazer-lhes compreender com que modéstia e respeito devem portar-se na casa de DEUS, especialmente quando se celebra a Santa Missa. Tanto mais me edificam senhoras da nobreza e princesas que só aparecem ante aos altares vestidas simplesmente, sem luxo nem elegâncias refinadas, quanto me escandalizam certas pretensiosas que, com seus penteados ridículos e ares de atrizes, assumem poses de deusas no lugar santo.

A bem-aventurada Ivete teve, certo dia, uma visão, que devia inspirar a essas pessoas o temor respeitoso devido à Santa Missa. Ao assistir à Santa Missa, viu essa nobre flamenga um espetáculo terrível. Perto dela estava uma dama distinta, cujo olhar se fixava aparentemente no altar; mas não era para seguir o Santo Sacrifício, nem para adorar o Santíssimo Sacramento que ia receber, e sim, para satisfazer uma paixão impura. Em volta dela estavam um grande número de demônios que dançavam e se expandiam em demonstrações de regozijo. Quando ela se levantou para se dirigir à mesa sagrada, uns lhe seguraram a cauda do vestido, outro lhe ofereceu o braço enquanto outros lhe faziam cortejo e serviam-lhe como a sua senhora. No momento em que o sacerdote descia do altar com a Santa Hóstia na mão, a fim de dar a comunhão àquela infeliz, pareceu a Ivete que o Salvador abandonava as santas espécies e volvia ao Céu, repugnando-Lhe entrar num coração assim rodeado de espíritos das trevas. Aterrorizada por semelhante cena, a bem-aventurada Ivete dirigia humildes preces a Nosso Senhor. E Ele revelou-lhe a causa, fazendo-lhe ver que aquela mulher alimentava uma paixão desordenada por uma pessoa que se achava próxima do altar, e que durante toda a Santa Missa, ao invés de se ocupar dos Santos Mistérios, contemplava-a com olhares impuros, desejando antes lhe agradar que agradar a DEUS. Por isso rodeavam-na os demônios e faziam-lhe o cortejo.

Dir-me-eis que não sois do número dessas infelizes criaturas, e eu creio de boa vontade. Se, entretanto, ides à Igreja com certos trajes escandalosos, mereceis todas as censuras. Transformeis o templo sagrado em covil de ladrões, pois roubais a DEUS a honra, pelas distrações que provocais aos sacerdotes, aos ministros, a todo o povo.

Por favor, considerai e tomai a resolução de imitar Santa Isabel da Hungria. Para assistir à Santa Missa, ela se dirigia com grande pompa à Igreja. Mas, para assistir ao Santo Sacrifício, retirava da cabeça a coroa, os anéis dos dedos, depunha seus ornamentos e cobria-se com um véu, ficando em atitude tão modesta que nunca foi vista desviar sequer os olhos. Tudo isso agradou de tal modo a DEUS que Ele quis manifestá-lo a todos: durante a Santa Missa, a Santa aparecia envolta de tal claridade que se velavam de deslumbramento os olhos dos assistentes; parecia-lhes contemplar um Anjo do Paraíso.

Imitai exemplo tão ilustre, certos de que agradareis a DEUS e aos homens, e que a Santa Missa será para vós de imenso proveito para esta vida e para a outra.

EXEMPLO PARA AS MULHERES DO POVO:



Modestia exterior no véu
Imodestia no comportamento
Grande é a utilidade que se aufere da assistência à Santa Missa, o que acaba de ser demonstrado. Muitas vezes, porém, há impossibilidade para certas pessoas, ou mesmo inconveniência, de ir à Igreja todos os dias. Vós que tendes filhos pequenos, ou que por obrigação ou caridade cuidais de um doente, ou que tendes um marido difícil que vos proíbe sair, não deveis inquietar-vos, ou, o que é pior, desobedecer. Pois, ainda que a Santa Missa seja um santo tesouro e de valor infinito, apesar de tudo, é sempre ainda melhor obedecer e renunciar à própria vontade, pois a obediência é imensamente valiosa.

Que sucederia, no entanto, se fôsseis à Santa Missa para vos entregardes à tagarelice, à curiosidade, às distrações voluntárias, e voltásseis com as mãos vazias? Foi o que sucedeu a uma camponesa, que morava em uma aldeia um pouco afastada da Igreja. Querendo alcançar uma graça importante, ela prometeu assistir à Santa Missa durante um ano. Com esta intenção, todas as vezes que ouvia repicar o sino anunciando a Santa Missa, em alguma Igreja dos arredores, largava imediatamente seu trabalho e punha-se a caminho, sem atender sequer às inclemências do tempo. De volta a casa, para não perder a conta das Santas Missas assistidas, que tencionava completar exatamente conforme se impusera, depositava cada vez uma fava em uma caixa cuidadosamente guardada. Passou-se o ano, e ela, certa de ter cumprido a promessa e alcançado muitos méritos, foi abrir a caixa. Ora, de tantas favas que ajuntara, só encontrou uma. Surpreendida e consternada, invadiu-a um grande pesar, e dirigiu-se a DEUS, dizendo-lhe lacrimosa: “Ó SENHOR, como é possível que, de tantas Santas Missas que participei, só uma se encontre de sobra? Nunca faltei, a despeito do esforço a fazer, do mau tempo, da chuva, do frio e do caminho ruim!”. DEUS então lhe inspirou a ideia de contar sua infelicidade a um piedoso sacerdote muito prudente. Este lhe perguntou de que modo ia ela à igreja, e com que devoção assistia ao santo Sacrifício. Então, ela disse-lhe que no caminho só falava de negócios ou de diversões e passava o tempo dos divinos Mistérios a tagarelar com um e outro, tendo o espírito ocupado exclusivamente com sua casa e seus campos. “Aí está, lhe disse o padre, o motivo de nada restar dessas Missas. A tagarelice, a curiosidade, as distrações voluntárias vos roubaram todo o mérito. Satanás vo-lo roubou. Por isso, vosso Anjo fez desaparecer as favas, para vos mostrar que as obras mal feitas, ficam perdidas. Dai graças a DEUS porque pelo menos uma das Santas Missas foi bem assistida e vos trouxe frutos”.

Fazei agora uma reflexão bem séria e dizei: Quem sabe, de tantas Santas Missas a que tenho assistido em minha vida, quantas foram agradáveis a DEUS? Que vos responde a consciência! Se vos parece que bem poucas dessas Santas Missas são dignas de mérito aos olhos de DEUS, remediai esta situação e emendai-vos sinceramente para o futuro.

Mas se, o que não queira DEUS, sois do número dessas infelizes, asseclas dos demônios, que vão à igreja ajudá-los a arrastar ao inferno, ouvi uma história apavorante e tremei!

Conta-se que certa mulher, tendo caído em grande miséria, errava em extremo desespero, num lugar solitário. Apareceu-lhe Satanás e disse-lhe que se ela quisesse distrair as pessoas na igreja, por meio de conversinhas e falatório inútil e inconveniente, ele a tornaria rica como nunca. A miserável mulher aceitou a proposta e pôs-se a executar o diabólico ofício, alcançando plenos resultados: agia e falava de tal maneira que ninguém perto dela podia assistir atentamente à Santa Missa, nem a outras cerimônias. Não durou muito, porém, que não pesasse sobre ela a mão de DEUS. Certa manhã desencadeou-se terrível tempestade e um raio certeiro fulminou-a, reduzindo-a a cinzas.

Ó mulheres, aprendei à custa de outrem, e fugi das pessoas que, por suas tagarelices e irreverências nas igrejas, exercem o ofício de ministros de Satanás, se não quereis incorrer também vós na cólera de DEUS.

São Tomás e São Boaventura, os dois doutores da Igreja, ensinam, como dissemos anteriormente, que o Santo Sacrifício da Missa é de valor infinito, tanto pela Vítima que é ai oferecida, que é o Corpo e o Sangue, a Alma e a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, principalmente, por Quem o oferece. No entanto, muitos há que O têm em tão pouca estima que colocam este tesouro sacratíssimo abaixo do mínimo interesse.

Outra finalidade não tem este livrinho, da primeira à última página, senão dar uma ideia justa desta preciosidade tão grande que não tem preço. E se, até aqui, este Santo Sacrifício era para vós um tesouro oculto, agora que lhe conhecem o valor infinito, tomem a resolução de aproveitá-lo, assistindo à Santa Missa todos os dias! Para a isso mais incitá-los, vou contar uma história apavorante, que será a conclusão desta obra. 



Enéias Sílvio Piccolomini, mais tardePio II, refere que, em certa região da Alemanha, havia um fidalgo de grande linhagem que, tendo caído na pobreza, vivia retirado em uma de suas terras. Aí, acabrunhado pela melancolia, estava prestes a deixar-se dominar pelo desespero, pois Satanás o impelia, cada dia, a por uma corda ao pescoço a fim de dar cabo da vida. Nesse combate contra a tristeza e a tentação, recorreu a um santo confessor, que lhe deu o excelente conselho de não passar, nem um dia, sem assistir à Santa Missa. O fidalgo aceitou o conselho e logo o colocou em prática; e fez mais: para ficar seguro de nunca faltar à Santa Missa, tomou um capelão que devia estar pronto a oferecer, cada manhã, o Santo Sacrifício, a que ele assistia com grande fervor e devoção. Um dia, porém, o capelão dirigiu-se bem cedo a uma aldeia pouco afastada para assistir um padre recém-ordenado que lá celebrava sua primeira Missa. O fidalgo, receoso de ficar privado da Santa Missa naquele dia, dirigiu-se apressadamente para a tal aldeia. No caminho, porém, encontrou um camponês, e este lhe disse que podia voltar dali, pois a Santa Missa do novo sacerdote já havia terminado e que na aldeia não se celebraria outra. A esta notícia, o fidalgo perturbou-se e exclamou entre lágrimas: “Que vai ser de mim hoje?”. O camponês, que nada podia entender de tão pungente aflição, replicou num tom de gracejo e ímpio ao mesmo tempo: “Não choreis, senhor, eu vos venderei a Missa que acabo de assistir. Dai-me o manto que trazeis e eu vo-la cedo”. O gentil-homem aceitou a estranha proposta do camponês e, entregando-lhe o manto, encaminho-se para a Igreja. Fez uma curta oração no lugar santo e voltou em seguida para casa. Mas, ao chegar ao sítio em que se detivera pouco antes, qual não foi seu espanto ao ver enforcado num carvalho, morto como Judas, o desgraçado camponês que lhe vendera sua Missa. A tentação de suicídio passara do fidalgo ao camponês que, privado do socorro que a Santa Missa lhe alcançara, não soubera resistir ao Diabo. O fato acabou de convencer o bom fidalgo de quão eficaz era o remédio sugerido pelo confessor, e mais se firmou em sua resolução de assistir, todos os dias, à Santa Missa.

Duas coisas de grande importância eu quisera que notásseis neste terrível caso. Primeiro, a grosseira ignorância de grande número de cristãos que, não sabendo apreciar as riquezas imensas na Santa Missa, vão a ponto de taxá-la por um preço material. 

Daí vem a linguagem inconveniente de algumas pessoas que falam em “pagar ao sacerdote a sua Missa”. Pagar a Missa! E onde encontrareis fortuna capaz de igualar o valor de uma única Santa Missa, já que ela vale mais que todo o Paraíso! Ó ignorância revoltante. Esse pouco de dinheiro que dais ao sacerdote, vós lho dais para seu sustento, mas não como pagamento, pois a Santa Missa é um tesouro sem preço.

Por que vos exortei, neste livrinho, a assistir todos os dias à Santa Missa e a encomendar quantas puderdes, é possível que Satanás vos coloque no espírito esta ideia: “Os padres nos exortam a encomendar muitas Missas, por motivos muito bonitos e especiais. Mas nem tudo que brilha é ouro. Sob esta aparência de zelo, eles escondem seu proveito e no fim de contas vê-se que o interesse é que lhes inspira a conduta e as palavras.”

Que erro o vosso, se pensais assim!

Dou graças a DEUS de me ter inspirado abraçar uma ordem na qual se professa a mais estrita pobreza, e não se recebem “espórtulas” pelas Missas. Se nos oferecessem cem escudos por uma só Missa, jamais os aceitaríamos, pois dizemos todas as nossas Missas na intenção que tinha CRISTO na Cruz, quando ofereceu ao Eterno PAI o primeiro Sacrifício do Calvário. Se, portanto, alguém há que possa elevar a voz sem receio de censura, sou eu que só busco o vosso interesse. 


Ora, tudo que vos aconselhei neste opúsculo vo-lo repito novamente, rogo-vos: assisti a muitas Santas Missas e encomendai o mais que puderdes. Tereis amontoado um grande tesouro que vos aproveitará neste Mundo e no outro.

A segunda verdade que deveis depreender da história precedente é a eficácia da Santa Missa para alcançar todo bem e preservar-se de todo mal, e em particular para adquirir forças espirituais a fim de vencer todas as tentações. Deixai-me, portanto, dizer-vos ainda: À Santa Missa! À Santa Missa! Se quereis a vitória sobre vossos inimigos e ver todo o Inferno vencido e dominado.

Resta-me ainda dar-vos um aviso, que se dirige também tanto aos sacerdotes, aos religiosos, como aos leigos: é que, para receber com grande abundância os frutos da Santa Missa, importa ir a Ela com a máxima devoção. Vós, leigos, portanto, assisti com toda a devoção à da Santa Missa, e para isto, se quiserdes, utilizai-vos deste livrinho e ponde em prática, cuidadosamente, tudo o que nele vai indicado. Em pouco tempo, posso assegurar-vos pela experiência, verificareis uma mudança sensível em vosso coração e tocareis com o dedo o grande bem que daí há de auferir a vossa alma.

E vós, sacerdotes, deveis temer a justiça de DEUS quando, por uma pressa exagerada ou por negligência irreverente, executardes mal as santas cerimônias, precipitardes as palavras, confundirdes os movimentos, numa palavra: despachardes a Missa. Refleti que consagrais, que tocais e recebeis o FILHO DO ALTÍSSIMO, e que não podeis, sem falta, omitir a menor cerimônia ou fazê-la de modo negligente ou defeituoso, como o ensina o sábio Suarez: “Vei unius caeremoniae omissio culpae reatum inducit”!

Por isso, João d'Avila, o oráculo da Espanha, não punha em dúvida que o Soberano Juiz pedirá aos sacerdotes uma conta mais rigorosa de todas as Missas que tiverem celebrado, do que qualquer outra obrigação. Por este motivo, tendo ouvido dizer que um jovem sacerdote passara à outra vida ao terminar sua primeira Missa, aquele santo homem soltou um suspiro e disse: “Ele celebrou, então, a Santa Missa?”. E como lhe respondessem que o neo-sacerdote tivera a felicidade de morrer logo depois de celebrá-la, replicou: “Ah! Grande conta tem ele de dar a DEUS, se celebrou uma Missa!”.

E vós e eu, que tantas temos celebrado, como nos arranjaremos no tribunal de DEUS? Tomemos por tanto a salutar resolução de rever, ao menos no próximo retiro que fizermos, todas as rubricas do Missal e todas as cerimônias sacras, a fim de celebrar com a máxima perfeição possível.

E estou certo de que se nós, sacerdotes, celebramos com um exterior grave e recolhido e, sobretudo, com grande fervor, os leigos, de sua parte, hão de decidir-se a assistir diariamente à Santa Missa. E teremos a consolação de ver renascer entre os cristãos de nossos dias o fervor dos primeiros fiéis da Igreja.

E vós, que é que estais fazendo? Por que é que não ides correndo para as igrejas para lá assistirdes fervorosamente a todas as Santas Missas que puderdes? Por que é que não quereis imitar os Anjos que, quando se celebra a Santa Missa, descem do Paraíso em grande número e vêm ficar ao redor do altar em adoração, intercedendo por nós? 


E DEUS será soberanamente honrado e glorificado: é esta a única finalidade desta pequena obra. Orai por mim, rezando uma Ave Maria.

[Trecho do Livro “As Excelências da Santa Missa” - SÃO LEONARDO DE PORTO-MAURÍCIO – páginas 78-82,  54-55 / 66-70].

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Jornal “Sim, sim, não, não” volta a ser editado na versão brasileira.

Prezados amigos,

Salve Maria!

É com muita alegria que comunicamos aos senhores que o Jornal Católico Anti-modernista “Sim, sim, não, não” voltará ser editado para todos os católicos de língua portuguesa.

A princípio, o periódico será publicado bimestralmente, entretanto, se houver boa adesão do público, será publicado mensalmente.

Os jornais serão entregues pelos correios na residência (ou outro endereço informado) do assinante.

O original do Jornal “Sim, sim, não, não”, fundado pelo Pe. Francisco Maria Putti, é italiano, todavia, este mesmo jornal está sendo traduzido para várias línguas em diversos países.

É preciso combater, entretanto, é preciso saber o que combater e como combater. Eis a oportunidade de aprofundarmos mais no conhecimento da Doutrina Católica de sempre, sem ambigüidades, tal como Nosso Senhor pregava.

O preço para a assinatura ANUAL é de R$ 30,00 (trinta reais) para assinatura normal e R$ 40,00 (quarenta reais) para quem quiser apoiar o projeto. Estes preços se referem a tiragem bimestral, entretanto, pagos ANUALMENTE. Quando a tiragem passar a ser mensal, possivelmente haverá reajuste de preços.

Os preços são quase que simbólicos em comparação com os gastos com impressão, edição, tradução e envio, por isso, pedimos a colaboração de todos.

Pedidos para o exterior, favor confirmar preço.

Para assinaturas e outros esclarecimentos, deve-se escrever para o seguinte endereço eletrônico: simsimnaonao@outlook.com . Faça já a sua assinatura.

Fiquem com Deus.


No Coração da Virgem do Perpétuo Socorro.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Notícias da Resistência: o Pré-Seminário São Pio X

Fonte: http://farfalline.blogspot.com.br/

ENTREVISTA COM O REV. PE. CARDOZO SOBRE O PRÉ-SEMINÁRIO SÃO PIO X


A Resistência continua o combate de Mons. Lefebvre, mantendo o foco no objetivo que é a defesa da Fé. E uma nova etapa se inicia, com a instituição de um Pré-Seminário em terras brasileiras. Aproveitamos a visita do Rev. Pe. Ernesto Cardozo em nossa cidade para entrevistá-lo e obtermos maiores informações a respeito. 

Pale IdeasRev. Pe. Cardozo, na atual crise que vive a Igreja, se faz necessário formar sacerdotes santos e bem preparados para o combate da fé, e para isso é necessário uma boa formação em um bom seminário. Soubemos que a Resistência começará um trabalho nesse sentido, criando um Pré-Seminário. O que é um Pré-Seminário?

Rev. Pe. Ernesto Cardozo: Costumam se apresentarem jovens que manifestam o desejo de seguir a vida sacerdotal, precisamos nos assegurar que não é uma simples ilusão, que realmente têm capacidades espirituais, morais, intelectuais, psicológicas para isso. A sociedade, por outro lado, estraga em vários sentidos aos jovens: vontades débeis, vícios, imaturidade, vida mole… Antes de falar de “seminário”, pensamos melhor falarmos desta etapa prévia que nos dê, a nós e a eles, uma certa segurança de uma vocação certa.

PI: Qual é o objetivo deste Pré-Seminário? Como funcionará?

RPEC: Os jovens começam vivendo em uma casa alugada, se distanciando ao menos fisicamente da família; rezam juntos, fazem vida de comunidade na medida em que seus horários o permitam, trabalham fora e dentro de casa. Eles arcam com as despesas – para que possam criar um sentido de responsabilidade, de generosidade – enquanto em suas horas livres terão aulas de filosofia, espiritualidade, historia, latim, francês, espanhol. A comunidade de fiéis apoia com seus esforços espirituais e materiais, para resolver os gastos com os estudos, o pagamento dos professores, os gastos de viagens etc. 



PI: Como será a sua estrutura? Quem é o corpo docente?

RPEC: Contamos com dois professores: um de filosofia tomista, outro de idiomas. Nós os orientamos sobre espiritualidade, história, arte e música. Conforme vejamos um avanço, procuraremos professores que ministrem outras aulas.

PI: Onde está localizado? 

RPEC: Perto da capela da Missão Cristo Rei em Ipatinga. É uma casa modesta que os fiéis encontraram e que reúne um mínimo de condições por enquanto; e diante das atuais necessidades basta… Depois, Deus dirá!

PI: Como surgiu essa oportunidade?

RPEC: Nosso professor de idiomas a encontrou, muito próximo da sua, o que facilitava o acesso às aulas; o preço era razoável e decidiram alugá-la.

PI: Sabemos que há muitos jovens interessados em estudar sua vocação. Nesses tempos em que vivemos, o que se espera de um candidato a seminarista? Que tipo de seminaristas a Igreja precisa? 


RPEC: Quando não se tem propriamente seminários, diante da atual deserção da liderança da Fraternidade, quando vemos a atitude dos sacerdotes que colocam em primeiro lugar a obediência, o conforto, o bem-estar, a unidade da congregação etc. ao invés da Fé, quando temos o triste panorama de ver sacerdotes e bispos supostamente preparados e formados na contrarrevolução apoiando e ensinando princípios modernistas, democráticos, liberais, o esforço para continuar com o ideal de nosso Fundador, Mons. Lefebvre, é muito grande! E, tanto quanto possível, a intenção é ponderar e provar exaustivamente as supostas vocações, antes de se falar de seminário. Pretendemos que as vocações estejam dispostas a perder tudo antes que a Fé, que sejam verdadeiros soldados de Cristo, que trabalhem para Sua maior honra e glória e para o bem das almas, que não trabalhem para si mesmos, que tenham um espírito de cruzados e missionários.

PI: Que requisitos alguém que acredita estar vocacionado precisa preencher para iniciar seus estudos?

RPEC: Sobre isso, o vocacionado deve entrar em contato com algum dos Padres da Resistência para ver as condições fundamentais contidas no Código de Direito Canônico de 1917, verificar quem o recomenda, quanto tempo de Tradição etc.

PI: Já há candidatos? Quantos são? É possível o ingresso de novos candidatos? 


RPEC: São apenas três; outros dois estão se formando no Mosteiro. O ingresso de novos candidatos será possível conforme nos mostre a Providência que esta é a sua Santa Vontade.

PI: Onde um candidato a seminarista pode se informar a respeito disso?


RPEC: Os candidatos podem entrar em contato conosco, seja pessoalmente que por E-mail (runaejcv@gmail.com).

PI: Como toda estrutura que inicia, é necessário apoio financeiro. Além das orações, de que forma os fieis podem colaborar com essa obra essencial para o Catolicismo?   


RPEC: O esforço maior está sendo feito pela comunidade da Missão Cristo Rei de Ipatinga. As doações podem ser entregue diretamente aos Padres da Resistência ou em nossa conta: Banco Itaú, conta corrente nº 6542 – 17866-7.

PI: Qual é a mensagem que o reverendo deixa para o despertar de novas vocações? 


RPEC: ... Temos uma só vida, e o que é melhor do que abrasá-la no amor da Deus? Como o incenso! Leia a vida dos Santos Missionários, a de Mons. Lefebvre! Veja a necessidade de sacerdotes na crise atual… Considere a quantidade de almas que se perdem eternamente!... Que faço? … Do que me ocupo?... Louco devo ser... se não sou santo!, se não me ocupo de alguma maneira em manter intacta a Fé de nossos Pais, de fazer, na medida de minhas possibilidades, com que a Igreja de Cristo (que não é a conciliar!) permaneça no tempo,… de gastar o tempo e os talentos construindo a Cidade de Deus,... e com isso salvar nossas almas.  Amém. 


quinta-feira, 20 de junho de 2013

O DEVER DE RESISTIR


    Artigo do jornal Sim Sim Não Não, Janeiro de 1993


    Desenvolvimento ou contradições?

Ao Católico convenientemente informado, e com mais forte razão ao sacerdote, ao religioso, impõe-se hoje a escolha seguinte: ou resistir à nova corrente eclesial e então ser taxado de rebelião à autoridade ou, adaptando-se a esta orientação negar ipso facto a infalibilidade da Igreja, que até o Vaticano II em lugar de "guardar, transmitir e explicar fielmente o depósito da Fé" (Primeiro Concílio do Vaticano) teria durante um tão grande número de séculos ignorado, errado e jurado, sem saber o que ela devia crer" (São Vicente de Lérins, "Commonitorium").

A adaptação à nova orientação eclesial é sem dúvida nenhuma mais cômoda à natureza humana que odeia o esforço e a luta mas é o caminho mais direto para a apostasia e está igualmente em oposição ao mais elementar bom senso. Admitindo que as contradições atuais com o que sempre foi crido, ensinado e portanto posto em prática na Igreja, venha desta mesma Igreja, por quê se deveria prestar fé hoje a uma instituição que se enganou ontem e poderia então enganar-se ainda hoje?
Estes mesmos inovadores que impõe suas inovações em nome da Igreja parecem ressentir-se do peso decisivo desta objeção e por isso afirmam que as novidades atuais "se inscrevem na única Tradição da Igreja" (cardeal Ratzinger), como sendo desenvolvimentos da única e imutável verdade. Mas não basta afirmar que uma novidade se inscreve na Tradição da Igreja; é necessário que ela se inscreva realmente e isto é evidentemente impossível quando estas novidades devem abertamente chocar-se com a Tradição. A menos que se queira renunciar à lógica, com seu princípio de não contradição e às declarações solenes do primeiro Concílio dogmático do Vaticano sobre a imutabilidade substancial da Tradição (Dz 1800), incorrendo na excomunhão do cânon correspondente (Dz 1818). Na realidade, a única e imutável Verdade não pode desenvolver, e portanto progredir, como jamais progrediu durante dois mil anos, por meio de contradições. As contradições doutrinárias na Igreja sempre foram denominadas erros ou heresias, elas não podem ser propagadas como sendo progresso e desenvolvimentos doutrinais a não ser no triunfo atual da heresia modernista, cuja essência reside justamente na consideração de que "na tradição, tudo é relativo e sujeito às mudanças" (São Pio X, "Alocução consistorial", A.A.S., t. 40, 1907, p. 268).
Portanto, às almas retas, às quais a "perversão modernista da inteligência" (Marcel de Corte) ainda não tirou o "medo da contradição" (R. Amerio), impõe-se o dever de resistir à nova orientação eclesial porque ela está, em todos os domínios, em contradição com o passado da Igreja.

A arma dos inovadores

Para evitar ou ao menos conter esta resistência, os autores e partidários desta reviravolta modernista na Igreja recorreram a numerosos meios, mas sobretudo à arma da obediência.
Mas então levantam-se três perguntas:
1. Obediência a quê?
2. Que obediência?
3. Obediência a quem?

Obediência a que?

Desde o Concílio, a Igreja não deu mais uma ordem que tenha características próprias duma ordem de modo que se saiba com exatidão: qual é o objeto desta ordem e se o legislador tem vontade de obrigar.
A própria reforma litúrgica, que foi durante longo tempo o ponto nevrálgico do conflito, não teve uma real e correta promulgação jurídica, se é certo que a promulgação duma nova lei deva ser feita "de tal modo que revele a vontade do legislador de estabelecer a lei, e que ele coloque a comunidade em condições de conhecê-la" (Roberti Palazzini, "Dicionário de Teologia Moral", verbete: promulgação da Lei). Ora, o próprio Cardeal Bugnini, factotum da reforma, tratando da "obrigação do [novo] missal" nos demonstra que não é jamais oportuno responder aos pedidos instantes dos Bispos para uma declaração oficial. Quando, à instância de D. Sustar, Secretário do Conselho das Conferências Episcopais Européias, a Congregação para o Culto elaborou uma resposta e a submeteu ao Secretário de Estado, este respondeu a 15 de Outubro de 1973 (prot. no. 243874): "Dada a delicadeza do assunto, objeto de polêmica, parece oportuno que Vossa Excelência responda àquela que vos escreveu de maneira pessoal por uma carta não oficial sem número de protocolo": "Queira-se esclarecer o problema sem ofender ninguém", escreve D. Bugnini.
Em seguida, em face das dificuldades criadas por certos grupos, aos Bispos locais, a Sagrada Congregação para o culto propôs o recurso à Comissão para a interpretação exata dos Documentos do Concílio, mas a 10 de junho de 1974 (no. 258911) a Secretaria de Estado repelia a proposição pela razão textual que uma resposta favorável à reforma teria sido encarada como "um ato odioso nas relações com a tradição litúrgica". "Ainda uma vez se queria evitar ofender alguém", comenta D. Bugnini (A. Bugnini, "A Reforma Litúrgica", 1948-1975). Maneira incrível de promulgar uma reforma (e que reforma): nem a vontade do legislador de obrigar foi jamais notificada, nem a comunidade foi posta em condições de conhecer esta vontade sem equívoco possível.
E não apenas no domínio litúrgico, mas em todos os domínios o reformismo progrediu "mais por silêncio calculado e por omissões" do que por ordens explícitas (Pe. Calmel, O.P.) segundo a tática própria dos modernistas (cf. S. Pio X, "Pascendi"). Obediência a quê então? Obediência a uma nova orientação eclesial imposta de fato, através de indicações sempre insuficientes para justificar qualquer reação, mas sempre suficientes para promover o aniquilamento da tradição em todos os domínios. Na prática, jamais se impôs explicitamente ao católico, em nome da obediência, uma negação de sua própria fé (caso em que ele estaria em condições de avaliar o alcance da obediência que lhe era exigida e teria sido colocado em circunstâncias que motivariam a sua necessária recusa).  Mas foi-lhe imposta e é imposta uma nova orientação eclesial que, implicando a negação de tudo o que a Igreja ensinou e fez sobre a base destes princípios doutrinários até o Vaticano II, conduz diretamente à apostasia.

Que Obediência?

Na ausência de ordem que tenha as características que deve ter toda ordem, não se pode falar de obediência no sentido próprio. Mas quando se quer falar também de obediência, como de fato se fala, a contradição entre a nova corrente eclesial e a antiga é tão evidente (impõe-se hoje o que se deplorava ontem e vice-versa) que se pede aos católicos uma obediência ilimitada quanto ao objeto e cega quanto ao grau. Ora, a obediência ilimitada — a moral católica no-lo ensina — só a Deus se deve, senhor supremo de todos e de tudo, ao passo que a obediência que se deve aos homens, inclusive ao Papa — é limitada:
1. Pelo direito divino, natural e positivo;
2. Por toda autoridade superior;
3. Pela matéria subtraída ao seu poder (cf. "Enciclopédia Católica", verbete: obediência e Roberti Palazzini, "Dicionário de Teologia Moral", verbete: obediência).
Assim, o Papa, só ou em Concílio, não pode contradizer o que está contido explicita ou implicitamente na Divina Revelação, porque a autoridade do Papa neste caso é limitada pelo direito divino. Ele não pode sozinho, mesmo em Concílio com os Bispos, contradizer o que já foi definido ou dado como certo por seus predecessores ou o que foi sempre e universalmente crido e ensinado na Igreja. Com efeito, isto é uma matéria subtraída a seu poder e ao poder do COncílio, o qual, neste domínio, pode exercer um julgamento confirmativo, jamais dubitativo, exatamente como um juiz que no tribunal tem o poder de aplicar a lei, mas não de discuti-la (cf. "Dicionário de Teologia Católica", verbete: Concílio T III, col. 665). E finalmente, do mesmo modo que não se deve obediência aos bispos contra o Papa, porque a autoridade do Papa é superior à dos Bispos, deve-se ainda menos obedecer ao Papa contra Nosso Senhor Jesus Cristo, porque a autoridade de Cristo supera e fundamenta a autoridade do Papa.
Conclusão: o próprio Papa não tem o poder de exigir dos católicos esta obediência sem limites que se exige deles hoje em nome do Concílio Vaticano II: ninguém, e ainda menos a autoridade instituída por Deus, pode impor a apostasia, seja ela prática ou teórica.
A moral católica, ademais, ensina que a obediência cega que "crê firmemente sem examinar o objeto [da ordem]" (L. Billot, S.J., "De Ecclesia", T. XVII), é devida somente a Deus e ao Magistério infalível da Igreja, o qual não está de nenhum modo implicado nem na nova orientação eclesial, nem mesmo no Concílio.
Por conseguinte, ninguém, nem mesmo o Papa, tem o poder de exigir dos católicos a obediência cega (sem exame do objeto) que se exige hoje deles em nome do Concílio pastoralVaticano II, como se se tratasse de um super-Concílio, para falar como o Cardeal Ratzinger, ou então dum Concílio não apenas infalível (o que ele não é), mas mesmo tendo o direito de contradizer (o que é ilícito mesmo para os concílios dogmáticos) a Sagrada Escritura, o Magistério constante da Igreja, todos os Papas e todos os Concílios dogmáticos em conjunto.
Obediência a quem?
A pergunta não é de todo estranha, se pensarmos que a autoridade de instituição divina na Igreja está hoje paralisada por uma falsa colegialidade que reduziu a autoridade do Papa a um papel de representação, e submeteu a autoridade de direito divino dos bispos às Conferências episcopais, de instituição humana. Ela fez assim destas duas autoridades o disfarce dos neo-modernistas que, através dos diferentes órgãos colegiais, exercem hoje o poder efetivo na Igreja.
A tática própria dos modernistas de se infiltrarem por toda a parte e de se manterem ocultos o mais possível, encontrou uma aplicação no governo pós-conciliar da Igreja, ainda mais do que nos documentos do Concílio. Nestes documentos o modernismo está presente por toda a parte, mas está também cuidadosamente escondido pela presença de fórmulas irrepreensíveis, que contrabalançam as fórmulas inquietantes (do mesmo modo que, inversamente, textos irrepreensíveis estão às vezes neutralizados por uma simples nota). De igual maneira, no pós-concílio, os neo-modernistas legislam em todos os domínios, mas sob a cobertura da autoridade legítima.
Segue-se que, em realidade, o católico que, como é de seu dever de consciência, resiste à nova orientação eclesial, resiste não à autoridade legítima, mas ao poder oculto que a suplantou e a manipula. E pouco importa que esta transferência ilegítima da autoridade para os órgãos colegiais seja alcançada com o acordo, mais ou menos consciente, dos detentores da autoridade legítima divinamente instituída: "não está no poder do homem renunciar a um direito divino" (Pio IX, "Quartus supra vigesimum").

O dever

Entre aqueles que não estão de acordo, no seu íntimo, com a nova orientação eclesial e que não se sentem obrigados a obedecer-lhe, muitos justificam inércia e passividade repetindo para si e para outros que "portae inferi non praevalebunt" (as portas do inferno não prevalecerão absolutamente contra ela. Mt. 16,18): a indefectibilidade foi prometida à Igreja e isto hoje dispensaria de resistir ou de combater aos que trabalham por destruí-la de dentro (pois se trata realmente disto, dado que não se pode compreender a auto destruição da Igreja no sentido próprio, uma vez que a Igreja, mesmo quando seus ministros a maltratam, é sempre a esposa fiel do Verbo Encarnado). Entretanto eles não pensam que a indefectibilidade foi prometida justamente à Igreja e não aos homens (da Igreja), nem mesmo a presença da Igreja em tal ou tal parte do mundo. A história da Igreja está aí para atestá-lo: o "não prevalecerão" não impediu que a África católica fosse apagada pela invasão muçulmana; não salvou do cisma as já gloriosas igrejas orientais, não impediu que a Inglaterra, a Suécia, a Suíça, os Países Baixos, Alemanha e outras nações européias já católicas tombassem com a pseudo-reforma protestante no cisma e na heresia. Porque se é verdade que "as portas do inferno não prevalecerão" e que a promessa de Deus não pode deixar de realizar-se "isto não significa que a promessa se deva entender no sentido fatalista e que os membros da Igreja, em particular os sacerdotes, devam deixar a Deus apenas o cuidado de manter e de guardar a Igreja, sua Fé e seus costumes. Mesmo aqui Deus se serve das causas segundas. A Igreja universal é seguramente sustentada e guardada por Deus, mas a vida e a duração das igrejas particulares dependem, em grande parte, da cooperação dos fiéis. Partes importantes da Igreja se perderam por culpa dos fiéis e mais ainda por culpa dos sacerdotes" (Bartmann, "Dogmática", V. II, pg. 449).
Daí o dever que, hoje, incumbe a todos sobretudo ao clero e aos religiosos, mas igualmente aos simples fiéis, de resistir à nova corrente eclesial.

Que resistência?

A resistência que exigem as circunstâncias atuais é uma resistência externa e interna. Recusar o compromisso com a nova orientação eclesial, conservar a fé e as práticas recebidas pela Igreja antes da crise atual, manifestar abertamente seu próprio desacordo, testemunhar, em suma, sua fidelidade à fé Católica e não deixar que os demolidores, no interior da Igreja, tenham a consciência tranqüila: tudo isso é o que chamamos resistência externa. A que denominamos resistência interna necessita de um raciocínio mais longo.
Dia 21 de dezembro de 1992 foi o oitavo aniversário do falecimento do Padre Francisco Maria Putti, que fundou o periódico Si Si No No para reconfortar os hesitantes e os isolados, para despertar os adormecidos, para ser uma repreensão pública aos demolidores da Igreja e para relembrar à autoridade a gravidade da crise da Igreja. Em sua fé viva ele não cessou jamais de se espantar com a indiferença de tantos "bons" sobretudo ministros de Deus e membros da hierarquia, e repetia que se todos aqueles que estavam em condições de avaliar a desastrosa realidade, tivessem encontrado coragem de manifestar sem temor sua própria desaprovação, o neo-modernismo jamais teria triunfado na Santa Igreja de Deus. Infelizmente, a desforra modernista surpreendeu o mundo católico — clero, religiosos e leigos — num momento de grandíssima fraqueza espiritual. O pós-Concílio fez realmente desabar numerosas fachadas, há muito mantidas em pé somente graças aos esforços tenazes e generosos dos Pontífices Romanos, desgraçadamente não secundados pelos próprios membros do episcopado que desobedecem assas freqüentemente. Basta-nos relembrar aqui "esta resistência, muitas vezes passiva mas real" oposta às disposições antimodernistas de São Pio X, não apenas pelos modernistas e seus simpatizantes, mas também por eminentes cardeais; resistência posta às claras e documentada na causa da canonização deste grande Pontífice (cf.Beatificationis et canonizationis servi Dei Pii Papae disquisitio circa quadam objectiones modi agendi servi Dei respicientes in modernismi debellationeTypis polyglottis Vaticanis, 1950, p. 59).
"Existe uma escola [na Igreja], escrevia então o cardeal de Lai, que encoraja e defende o princípio das idéias largas, do mínimo a crer e a fazer, escola que de degrau em degrau desce ao puro racionalismo, ao ceticismo e ao panteísmo" (ibi., pg. 65). Era a escola dos católicos poluídos pelo liberalismo "escola" que triunfou no Concílio Vaticano II. Com esta luz compreende-se a significação e toda a gravidade dos apelos insistentes à oração e à penitência que desde cerca de dois séculos a Santíssima Virgem dirigiu a um mundo católico disposto a usufruir das vantagens materiais da religião cristã, mas sempre mais hostil às exigências da Fé que manda amar a Deus sobre todas as coisas e até pelo sacrifício de si mesmo.
Se inimigos exteriores e traidores internos da Igreja foram os principais responsáveis pelo desastre pós-conciliar, este desastre foi contudo longamente preparado e em seguida possibilitado por um grande número de sacerdotes e de religiosos espiritualmente negligentes e ociosos. Estes acreditavam ter feito bastante ao salvar o santuário de sua própria alma da profanação total. Esta responsabilidade foi igualmente partilhada por uma grande massa de leigos descuidados de sua espantosa e culpável ignorância e alheios ao esforço acético que impõe a vida cristã mesmo não consagrada. Um semelhante mundo católico, satisfeito com pertencer de um modo puramente exterior à Igreja, não poderia encontrar estas graças extraordinárias de luz e de força requerida pela urgência extraordinária dum ataque desencadeado contra a Fé em Nome da autoridade e da obediência a um Concílio ecumênico.
Entretanto, tudo concorre para o bem daqueles que tendem para Deus com um coração sincero, mesmo aquilo que, como a atual crise eclesial, parecia menos favorável à vida espiritual. De fato, a atual crise da Igreja, para quem quer compreendê-la, é um apelo a abandonar toda a presunção pela qual se diria que o fato de pertencer à Igreja pudesse salvar sem uma Fé vivida e conhecida. "Endireitai vossos caminhos e vossas obras e eu estarei convosco neste lugar. Não vos fieis absolutamente em palavras mentirosas" "Aí está o santuário de Yahvé. Eu vou tratar este templo que traz o meu nome e no qual vós colocais vossa confiança, e este lugar que eu dei a vós e a vossos pais, como eu tratei a Silo [o qual não foi salvo da destruição apesar de ter obrigado durante muito tempo a Arca do Senhor]" (Jr. 7,3-4 e 14).
O remédio, portanto, deve atingir a raiz do mal: a ausência de fé viva animada por uma fervorosa caridade, e portanto a ausência de espírito sobrenatural, foram as causas profundas da crise atual e por conseguinte, na medida em que cada um se esforça por readiquirir ou aumentar em si esta fé viva e este espírito sobrenatural, nesta mesma medida terá dado sua mais valiosa contribuição à superação da crise. É a este compromisso pessoal e interior que chamamos resistência interna. O deserto da fé em que vive hoje o católico, torna mais árduo, mas não impossível, este compromisso. É sempre possível, de fato, retornar ao luminoso Magistério oposto aos erros modernos pelos Pontífices Romanos, de Pio IX a Pio XII, é sempre possível procurar ou freqüentar, ou ao menos manter-se em contato com estes oásis de fé viva e de espírito sobrenatural que são os priorados de Sua Excelência Dom Marcel Lefebvre. Enfim, é sempre possível para todos, por toda a parte e sempre, rezar. Este esforço que nas circunstâncias atuais, não pode deixar de se impor, será também uma forma de reparação que atrairá sobre nós, sobre a Igreja, sobre as almas, a misericórdia de Deus. "Ipse castigavit nos propter iniquitates nostras et Ipse salvabit nos propter misericordiam suam". Ele nos castigou por causa de nossas iniqüidades e nos salvará por causa de sua misericórdia (Tb. 13, 5).

Nota sobre as manifestações.


Por Padre Cristóvão
Vendo a vibração de certos católicos ditos conservadores com as manifestações organizadas pelo “Movimento passe livre” em São Paulo, que eclodiu em outras tantas por todo o país, penso ser importante alertar para os seguintes aspectos:


1. O movimento é uma organização geneticamente revolucionária, regida pelos princípios do Fórum Social Mundial (cf. 
http://mpl.org.br/node/2
). Sua organização é anárquica (
http://mpl.org.br/node/5
, vide “horizontalidade”) e seus esforços se colocam em sintonia com os dos demais movimentos de desintegração social, como o gayzismo, o laicismo beligerante, o etnicismo etc. (cf. 
http://mpl.org.br/node/1

). Embora alegue seu apartidarismo, confessa seu não antipartidarismo. Parece tão ingênuo e impoluto… E o diz propositalmente para parecê-lo. Mas…
O princípio para avaliar uma manifestação de massa é o uso político que dela se faz, que quase sempre não coincide com o motivo declarado explicitamente pelos manifestantes. De modo que, acima de tudo, atente-se que a não dependência partidária explícita não é sinônimo de independência da gerência partidária implícita. Aliás, de onde vem o dinheiro usado pela organização? E o comando para a mobilização das mídias, que acabaram se transformando em meio direto de convocação das hostes?
2. As críticas dirigidas pelos manifestantes ao PT são de que este não é tão comunista como queriam que fosse. Sendo assim, a vitória não é do partido, mas da mentalidade comunista, hegemonicamente presente na cultura popular. Este é o resultado da não oposição ideológica à revolução gramsciana, há décadas invicta em nossa nação.
3. Para quem pensa ser contraditório a esquerda colocar-se contra si mesma, não se esqueça de que a psicologia dialética é essencialmente suicida. Desta forma, na elaboração marxista, o socialismo é apenas uma etapa autodestrutiva para a implantação do comunismo; e aquela, estrategicamente, seria antecedida eventualmente por outras etapas, de igual modo autoaniquilatórias. Portanto, o PT é consciente de ser apenas uma etapa a ser superada naquele horizonte; e isto não é acidental, é totalmente programado para ser assim.
4. Historicamente, o movimento revolucionário sempre trabalhou:
a) com uma dinâmica contraditória, para espalhar confusão e dissolução na sociedade;
b) com a matização dos mesmos preceitos em modelos diferentes de radicalidade, para fugirem da acusação de extremismo, enquanto falsamente se encaminham para a execução dos mesmos objetivos;
c) com a implantação do vitimismo e da revolta, como elemento aglutinador de forças beligerantes;
d) fazendo com que este laboratório de engenharia social culminasse com a eliminação de alguns de seus opositores (a Igreja ou outras instituições conservadoras). Assim, por exemplo, começaram a revolução francesa e a guerra civil espanhola, todas, na origem, meras manifestações inocentes de vitimismo e, no fim, assassinas e anticlericais.
Adendo.
Em 1936, aconteceu uma aparição de Nossa Senhora no Brasil, em Pernambuco, na cidade de Pesqueira, na vila de Cimbres, num lugarejo denominado Sítio da Guarda. A aparição, pouco conhecida, foi aprovada pela autoridade eclesiástica da época.
Ali, a Virgem disse a duas meninas: “Minhas filhas, virão tempos calamitosos para o Brasil! Dizei a todo o povo que se aproximam três grandes castigos, se não for feita muita penitência e oração”.
O sacerdote, depois, as interrogou durante uma aparição, na qual ele perguntava diretamente à Virgem (em latim e alemão, idiomas ignorados pelas videntes) e Ela respondia às crianças, que lhe transmitiam a resposta:
“- Que significa o sangue que corre das vossas mãos?”
“- O sangue que inundará o Brasil”.
“-Virá o comunismo a penetrar no Brasil?”
“- Sim”.
 “- Os padres e os bispos sofrerão muito?”
 “- Sim.”
“- Será como na Espanha?”
“- Quase”.
“- Quereis que se pregue sobre este assunto?”
“- Sim”.
Tempos depois, a Virgem voltou a aparecer a uma das videntes, dizendo-lhe: “Nunca mais me manifestarei aqui em Guarda e os três castigos não virão JÁ, porque o povo está melhor; mas é necessário ainda rezar muito e fazer penitência”.

sábado, 15 de junho de 2013

Carta ao Episcopado Brasileiro - Sobre o modo como se deve prover à reta formação do clero.



SACRA CONGREGATIO DE SEMINARIIS
ET STUDIORUM UNIVERSITATIBUS
EPISTULA
AD EMOS. PP. DD. CARDINALES ATQUE
EXCMOS. PP. ARCHIEPISCOPOS, EPISCOPOS
CETEROSQUE ORDINARIOS BRASILIAE:
DE RECTA CLERICORUM INSTITUTIONE
RITE PROVEHENDA.
Acta Apostolicae Sedis
XLII (1950) 836-844:
_______

Sagrada Congregação dos Seminários
e das Universidades

Carta ao Episcopado Brasileiro

Sobre o modo como se deve prover
à reta formação do clero

(7-III-1950)

Eminentíssimos Senhores Cardeais, 
Excelentíssimos Senhores Arcebispos, Bispos e demais Ordinários do Brasil.

Esta Sagrada Congregação, que acompanha atentamente, como é seu dever, o andamento dos Seminários, onde crescem tantos jovens levitas, promissora esperança da Igreja, está bem informada dos progressos conseguidos em a nobre terra do Brasil, visando a obter uma ótima formação do clero, e congratula-se, por isso, com os Excelentíssimos Senhores Bispos. O Primeiro Congresso Nacional de Vocações Sacerdotais, realizado recentemente na Sé Primacial de Salvador, no Estado da Bahia; os esforços que se fazem para aumentar o numero das vocações sacerdotais, até agora, muito inferior ao que convém para satisfazer às necessidades de uma grande nação católica; o número crescente dos jovens escolhidos que são enviados a Roma, a fim de concluírem no Pontifício Colégio Pio Brasileiro a própria formação intelectual e moral ao sacerdócio: todos estes frutos do zelo dos Excelentíssimos Senhores Bispos, e de seus dedicados colaboradores, trazem-nos muita consolação, e são dons preciosos do Pai Celeste. A Ele, glória e gratidão.

Importância da ciência.
Sabemos também, particularmente, com quanto cuidado se procura, nos Seminários Maiores, aperfeiçoar os estudos e adaptá-los às necessidades do nosso tempo. É, de fato, necessário que o sacerdote esteja preparado para apresentar a doutrina exata, segura e tradicional sob a forma que melhor iluminará as inteligências e conquistará os corações.
Por isso, deve-se, primeiro, aperfeiçoar sempre a arte de escrever e de falar, cujos princípios foram aprendidos durante os estudos clássicos. Cumpre, depois, conhecer os erros modernos, considerando e refutando [836/837] clara e solidamente os princípios que são a fonte dos vários sistemas de hoje e de amanhã. E, finalmente, é preciso prestar especial atenção àqueles problemas tanto especulativos como práticos que estão na ordem do dia e dos quais o sacerdote deve saber a solução conforme à Revelação e à reta razão. “Labia sacerdotis custodient scientiam” [“Os lábios do sacerdote guardam a ciência”]. Não deixemos que nos arrebatem das mãos a direção intelectual dos homens, quando se trata dos máximos problemas que interessam à integridade da fé e à salvação eterna das almas.
O acordo, porém, destes dois fins, isto é, ensinar uma doutrina sólida, tradicional, esclarecedora, e ao mesmo tempo apresentá-la de maneira adequada às necessidades atuais, não deixa de ter particulares dificuldades; tanto assim que, muitas vezes, o justo equilíbrio deixa de ser observado, e vai-se cair, ou num ensino exato, mas incompleto e encerrado em formas arcaicas que o tornam dificilmente utilizável nas lutas de hoje, ou, por outro lado, em novidades que agradam deveras, de algum modo, à juventude, mas que corrompem a doutrina e impedem a verdadeira formação da inteligência.
Dever da Sagrada Congregação.
Por isso, esta Sagrada Congregação julga seu dever recordar a todos quantos são responsáveis pelo bom andamento dos Seminários “opportune, importune” [oportunamente e inoportunamente], as normas ditadas pela sabedoria dos séculos e pelas experiências cotidianas, para a obtenção de uma cultura sólida e atualizada ao mesmo tempo, consoante aquilo do pai de família que dá aos seu filhos “nova et vetera” [coisas antigas e coisas novas].
Todavia, dado que o perigo mais urgente hoje não é o de um apego demasiado rígido e exclusivo à tradição, mas principalmente o de um gosto exagerado e pouco prudente por toda e qualquer novidade que apareça, cremos de utilidade chamar a atenção dos Excelentíssimos Senhores Bispos para este grave perigo que tornaria vãos os melhores esforços e, ainda mais, produziria efeitos completamente opostos àqueles que se procuram conseguir com tanto sacrifício de pessoas e dispêndio de recursos materiais.
* * *
Deve-se seguir Santo Tomás.
Quando o Papa Leão XIII, de gloriosa memória, quis restituir a solidez e a profundidade que convêm ao ensino eclesiástico, então incerto e superficial em muitos lugares, pediu e impôs com a Encíclica Aeterni Patris a volta à Filosofia de Santo Tomás de Aquino, através do qual a razão alcançou talvez os mais elevados cumes que lhe sejam possíveis, e a fé encontrou na razão os mais numerosos e válidos auxílios (Leonis XIII, Acta, vol. I, Romae 1881, p. 27). Exortava ele: “Vos omnes, [837/838] Venerabiles Fratres, quam enixe hortamur ut ad catholicae fidei tutelam et decus, ad societatis bonum, ad scientiarum omnium incrementum auream sancti Thomae sapientiam restituatis”. E acrescentava: “Ceterum, doctrinam Thomae Aquinatis studeant magistri, a Vobis intelligenter lecti, in discipulorum animos insinuare; eiusque prae ceteris soliditatem atque excellentiam in perspicuo ponant”. (Ibid., pp. 282-283). [“Nós vos exortamos, Veneráveis Irmãos, da maneira mais premente, e isto para a defesa e honra da fé católica, para o bem da sociedade e para o progresso de todas as ciências, a restaurar e propagar o máximo possível a preciosa doutrina de Santo Tomás”...“Ademais, que os mestres, designados por Vossa escolha esclarecida, se apliquem a inculcar no espírito de seus discípulos a doutrina de Santo Tomás de Aquino, e que eles tenham o cuidado de fazer ressaltar o quanto esta é superior a todas as outras em solidez e excelência”.]
De fato, obedecendo às normas do grande Pontífice, a filosofia e a teologia católica recomeçaram a florescer, a produzir obras de grande valor, e conquistaram a estima das Universidades dos Estados, que não raro inseriram Santo Tomás nos seus programas. Os sucessores de Leão XIII têm todos recomendado a doutrina do Aquinate. O Santo Padre Pio XII, no primeiro ano de Seu Pontificado, reunindo no pátio de São Dâmaso os milhares de estudantes eclesiásticos que residem em Roma, disse-lhes: “Quapropter, dilectissimi filii, animum afferte plenum amoris et studii erga Sanctum Thomam : totis viribus incumbite ut luculentam eius doctrinam intellectu perspiciatis : quidquid ad eam manifesto pertinet et tuta ratione ut praecipuum in ea habetur, libenter amplectimini” (A.A.S., XXXI, 1939, p. 246 ss.). [“Doravante, meus diletíssimos filhos, trazei a vossos estudos uma alma repleta de amor ardente por Santo Tomás; fazei tudo o que estiver ao vosso alcance para penetrar com vossa inteligência na rica doutrina dele; acolhei com generosidade tudo o que dela manifestamente faz parte e constitui seus elementos principais”.]
O mesmo Código de Direito Canônico ordena: “Philosophiae traditionalis ac theologiae studia et alumnorum in his disciplinis institutionem professores omnino pertractent ad Angelici Doctoris rationem, doctrinam et principia, eaque sancte teneant”. (can. 1366 § 2). [“Que os professores tratem totalmente seus estudos de filosofia tradicional e de teologia e a instrução dos alunos nestas disciplinas segundo o método, a doutrina e os princípios do Doutor Angélico, e adotem a estes religiosamente.”]
Não se pode, portanto, duvidar do pensamento e da vontade da Santa Igreja; e, sem dúvida, entre os que devem especialmente demonstrar a própria submissão à Igreja, estão precisamente os clérigos que se formam para o Seu serviço e os professores aos quais Ela confiou a educação dos seminaristas.
Método escolástico.
Consequentemente, não se deve mudar o método de ensino — queremos dizer o método escolástico —, que é antigo, sim, mas não é antiquado. Definir com exatidão e precisão; dividir as questões; demonstrar com ordem, clareza e solidez; citar as autoridades com fidelidade e sobriedade; refutar os adversários sem ambiguidades: estes são os ideais de exposição escolástica, e devem ser os de todo o ensino sério e formativo. Quanto aos princípios e à doutrina, seria uma grande temeridade abandonar as razões que o gênio dos Padres e dos Santos Doutores empregou para ilustrar e defender a fé, e que o gênio de Santo Tomás recolheu e apresentou com o máximo de vigor que possuem.
Se o professor tiver aprofundado a doutrina tradicional, e estiver entusiasmado por ela, também os discípulos haverão de saboreá-la, sem necessidade de irem beber em fontes envenenadas. Se, pelo contrário, o [838/839] professor, sob o pretexto de filosofia modernizada ou de teologia “viva”, procura ensinar com sentenças oratórias e com expressões peregrinas as novidades da moda do dia, deformará as inteligências e comprometerá o futuro da Igreja em todo o campo das influências de seus alunos.
Evitar certos erros.
Sobre o milagre. A graça. Pecado original.
É certamente ao “snobismo” das novidades que se deve o pulular de erros ocultos sob uma aparência de verdade e, mui frequentemente, com uma terminologia pretensiosa e obscura; que se quer fazer apologética sem falar do milagre, nem refutar os erros, apresentando unicamente a vida íntima da Igreja; que se exalta a grandeza do homem, deixando na sombra o pecado original e as suas consequências; que se contempla a glória da Ressurreição do Redentor sem meditar sobre a Sua Paixão; que se magnifica a onipotência da graça, sem falar da necessidade da cooperação por parte do homem.
Criação do homem.
O grande progresso das ciências naturais, que deveria servir tão somente para exaltar a sabedoria do Criador e melhorar a condição dos homens, foi, ao contrário, para alguns, a ocasião de teorias arriscadas, destituídas de sólido fundamento, que abalam as inteligências inexperientes e desacauteladas. Em particular, fala-se da origem do homem, fazendo-o provir, sem mais, do bruto, não levando em conta as exigências mais certas da filosofia e da teologia, exigências, porém, relembradas pelo Santo Padre, no discurso que pronunciou há poucos anos, diante da Academia Pontifícia de Ciências (A.A.S. XXVIII, 1941, p. 506); põe-se em dúvida a descendência de todos os homens de Adão e Eva, deixando, por tal forma, cair dúvidas também sobre a elevação sobrenatural do homem, sobre o pecado original e sua transmissão; ou, caindo no excesso oposto, propaga-se um certo sobrenaturalismo que despreza tudo aquilo de que o Senhor nos dotou com a nossa natureza: a ética racional, a filosofia propriamente dita e o próprio direito natural que o Soberano Pontífice reafirmou, recentemente, ao receber os componentes da Sagrada Rota Romana. Outros, favorecendo as diversas formas do relativismo, expressam-se de modo a pôr em perigo a imutabilidade do dogma. Quem não vê a urgência de proteger contra semelhantes tendências os jovens clérigos, ainda incapazes de discernir por si mesmos os erros escondidos sob as aparências de puro zelo e sob véu de uma forma brilhante?
Liturgismo. Eucaristia. Oração.
Perigos semelhantes existem no campo da vida espiritual. Em Sua Encíclica Mediator Dei, cheia de tanta doutrina, o Santo Padre Pio XII assinalou e desaprovou certos abusos, que alguns estavam introduzindo, sob pretexto de uma Liturgia mais pura. Assim, falava-se contra a adoração do Santíssimo Sacramento, que, diziam, se conservava somente para o viático a ser levado aos doentes; falava-se contra a ação de graças [839/840] prolongada por algum tempo depois da Comunhão e da Santa Missa; falava-se contra a Bênção Eucarística, tida por inovação irracional. Alguns iam mais longe, reprovando a representação de Jesus Crucificado, por ser menos conforme às suas concepções sobre a vida mística; outros não admitiam senão a oração litúrgica e desprezavam a meditação particular, os Exercícios Espirituais, os exames de consciência. Erros esses todos, opostos à tradição mais sadia e constantemente aprovada pela Santa Sé, e que também depois da Encíclica, não parece tenham desaparecido inteiramente, muito embora hajam sido aberta e explicitamente atingidos por aquele documento. Relembremos apenas esta sentença, na qual Pio XII enumera alguns dos exercícios de piedade que a Igreja recomenda não só ao Clero e aos Religiosos, mas também ao povo católico: “Haec autem sunt, ut praecipua tantum attingamus, spiritualium rerum meditatio, diligens sui ipsius recognitio ac censura, sacri secessus aeternis commentandis rebus instituti, piae ad Eucharistica tabernacula salutationes ac peculiares illae preces supplicationesque in honorem Beatae Virginis Mariae habitae, in quibus, ut omnes norunt, Mariale excellit Rosarium” (A.A.S., XXXIX, 1947, p. 584). [“São eles, para falar apenas dos principais: a meditação das coisas espirituais; o diligente exame de consciência, para melhor conhecer a si mesmo; os retiros espirituais, instituídos para reflexão mais intensa nas verdades eternas; as fervorosas visitas ao Santíssimo Sacramento e orações ou súplicas especiais em honra da Santíssima Virgem Maria, entre as quais excele, como todos sabem, o Rosário.”]
É natural que, logo a seguir, as ideias erradas manifestem o seu perigoso influxo na atividade pastoral. O espírito de novidade não deixará jamais sem crítica a nada de quanto até hoje, mesmo com visíveis vantagens, se tenha praticado. Aproveitar-se-á de qualquer abuso, ou ainda de algum exagero num costume tradicional ou num método de apostolado, para ridicularizar e hostilizar o todo, tomado no seu conjunto.
Laicismo.
Entre os mais graves erros dos tempos modernos, deve-se enumerar o laicismo, que mira excluir a Igreja e os seus mais altos representantes da direção da vida pública e social, reservando-a unicamente aos leigos. Excogitado pelos inimigos da Igreja, o laicismo difundiu o seu espírito também entre os católicos, os quais veem constrangidos a intervenção da Hierarquia Eclesiástica na vida concreta dos povos e relegariam, de muito boa vontade, a atividade dos sacerdotes às igrejas e às sacristias. Desejariam, também, que o ensinamento evangélico se atuasse por via de máximas genéricas, sem jamais descer às aplicações específicas práticas da verdade cristã acerca dos vivos problemas da família, da escola, da justiça social, da paz internacional e da própria liberdade pessoal do homem.
Um verdadeiro cristão, sem confundir os interesses espirituais com os temporais, saberá porém pedir, em todas as questões que tocam à consciência, ou que podem ter interferência com o fim último sobrenatural do homem, os conselhos e a ajuda da Igreja, persuadido de que [840/841] esta, se lhe mandar dar a Deus o que é de Deus, igualmente ensinará a dar a César o que é de César.
Daqui, aparece evidente quanto estejam errados aqueles para os quais a própria Ação Católica, que por essência é submetida à Hierarquia, dever-se-ia subtrair o mais possível ao controle da mesma.
Liberalismo.
Um outro erro, igualmente condenado pela Igreja, deve ser evitado pelo cristão: o Liberalismo. Ele nega que a Igreja, em razão do seu nobilíssimo fim e da sua divina missão, tenha uma natural supremacia a respeito do Estado. Admite e encoraja a separação entre os dois poderes. Nega à Igreja Católica o poder indireto sobre as matérias mistas. Afirma que o Estado deve mostrar-se indiferente em matéria religiosa, no que respeita a todos os fiéis; que se deve conceder a mesma liberdade à verdade e ao erro; que à Igreja não cabem privilégios e favores ou direitos maiores do que os concedidos às demais confissões religiosas, nem sequer nos países católicos; que a Ação Católica não tem direito de intervir nas questões temporais e civis, nem mesmo quando estas tocam os interesses supremos da religião e as finalidades próprias da Igreja. Ora deve-se ter presente, hoje como no passado, que, onde as circunstâncias o aconselharem, se poderá usar de tolerância para com as falsas religiões e as falsas doutrinas, mas que onde tais circunstâncias não se verificam, devem ser mantidos os direitos da verdade e os homens devem ser preservados do erro. O cristão que fala diversamente trai a sua fé, dá força ao indiferentismo e priva os seus concidadãos do benefício que lhes oferece o culto e o amor da verdade.
Esquerdismo.
Para alguns, nem são suficientes, no campo social, as diretivas tão humanas, tão sabiamente favoráveis às classes trabalhadoras, que a Santa Sé, principalmente desde Leão XIII até Pio XII, tem promulgado, mas procurar-se-á avançar sempre mais para a esquerda, até nutrir uma verdadeira simpatia para com o comunismo bolchevista, destruidor da religião e de todo o verdadeiro bem da pessoa humana.
* * *
Vigilância.
A fim de que os caros seminaristas de V.V. Excias. sejam mantidos afastados de um espírito assim deletério, faz-se mister uma vigilância constante e sábia.
Muito, quase tudo, depende da boa escolha dos sacerdotes que devem viver em contato com os jovens levitas e formar neles, quer a inteligência, quer a vontade. Tão logo algum deles, Superior, Professor, Diretor Espiritual se manifeste contaminado pelo espírito que acima descrevemos, [841/842] deve ser afastado, com firmeza e solicitude. Semelhante medida parecerá, às vezes, tornar-se causa de consequências danosas, em virtude do afeto que, não poucas vezes, a juventude tem a esses inovadores; mas a experiência demonstra, ao invés, que os bons efeitos não tardam a aparecer, para o bem e a alegria de todos.
Necessidade de estudar a filosofia tradicional antes da teologia.
Se quisermos preservar os jovens da sedução das ideias menos seguras, o meio mais eficaz e mais digno deles consiste em ensinar-lhes uma boa e sã filosofia, isto é, a filosofia tradicional, segundo os princípios de Santo Tomás. Uma vez iluminados por verdadeiros e clarividentes princípios em metafísica e em moral, os clérigos verão, facilmente, a fraqueza e a inconsistência que tantas novidades ocultam sob as louçanias do estilo e sob a abundância de uma erudição mal digerida. Por tal forma, saberão resistir aos sistemas errôneos em voga, e hão de estar armados para enfrentar os novos erros que surgirão sempre, com o mesmo fascínio e inconsistência daqueles de hoje.
É preciso, portanto, que a primeira orientação filosófica dos jovens clérigos consista principalmente em fazer-lhes conhecer, entender e amar a verdadeira doutrina. Não haverá, por isso, tempo suficiente para estender-se muito sobre os sistemas modernos, mas poder-se-á fazer conhecer suficientemente os principais, em seus princípios mais gerais, de maneira que os estudantes possam depois aprofundá-los mais, se tiverem necessidade.
Uma boa filosofia constitui a melhor preparação para uma boa teologia. Os alunos devem conhecer bem o sentido exato dos dogmas, devem saber defendê-los e estar em condições de ilustrá-los, como diz o Concilio Vaticano, com as analogias tiradas das coisas criadas; guardem-se do relativismo proveniente da filosofia de Hegel, que foi condenado juntamente com o modernismo, e que fala de uma evolução dos dogmas, de um sentido a outro totalmente diverso.
Formação à virtude.
Não basta, porém, cultivar retamente a inteligência dos seminaristas; além do que, esta mesma cultura seria impossível, se não se procurasse formar primeiramente a vontade e o coração. De fato, o que se encontra no fundo dos desvios que indicamos é, principalmente, o amor próprio, a vaidade, o orgulho.
Quer-se aparecer, e por isto procura-se não o que é verdadeiro, mas aquilo que parecerá melhor recebido dos demais. É preciso, portanto, ir à raiz, e ensinar aos jovens o que há de formá-los: a humildade, a abnegação da vontade própria, a obediência. Alguns dizem que estas são virtudes “passivas”, que tiveram sua eficácia no passado, mas que não correspondem mais às exigências da sociedade moderna. Hoje, segundo [842/843] eles, devem exercitar-se as virtudes que denominam “ativas” (ação, apostolado, organização). São, por conseguinte, favoráveis às Ordens e Congregações de vida ativa e menosprezam as de vida contemplativa. Acrescentam que tanto os sacerdotes, como os simples fiéis, devem gozar da mais ampla liberdade individual, seja no pensamento como na ação, sendo o Espirito Santo, mais do que a Hierarquia, quem age diretamente na consciência de cada um.
Estes erros funestos, derivados dos influxos protestantes, levariam a uma total desagregação a admirável disciplina existente há séculos na Igreja de Cristo, por vontade mesma do Divino Fundador.
Grave responsabilidade.
Grave responsabilidade pesa sobre os Superiores e os Diretores Espirituais dos jovens clérigos, aos quais devem ensinar a viver segundo o Evangelho. O sacerdote de Nosso Senhor deve, por amor ao Divino Mestre e para imitá-Lo, renunciar de coração tanto às honrarias do mundo quanto às comodidades da vida. No estudo, na pregação, em qualquer apostolado não há de procurar a si próprio mas somente as almas. Ora, a renúncia de si mesmo, dos próprios modos de ver, do desejo de sobressair e fazer-se admirado, adquire-se tão só com a oração, com a meditação da vida de Jesus e das palavras por Ele proferidas para todas as gerações, com exercício paciente e controlado por frequentes exames de si mesmo. Sem a vitória neste setor do combate espiritual, não se chega à humildade cristã, necessária para submeter-se em tudo à vontade de Deus. Com a humildade, ao contrário, também a obediência torna-se fácil, e então desaparece o espírito de contradição, de crítica a todas as coisas, de revolta mais ou menos consciente às diretivas das Autoridades. Então, o primeiro movimento não será mais o de reprovar e censurar quanto se fez antes de nós, ou sem nós, e de querer mudar tudo, mas antes de reconhecer e utilizar, com ânimo agradecido, o bem que já existe, procurando somente, com modéstia, aperfeiçoá-lo naquilo que estiver ao nosso alcance.
Devoções à Santíssima Virgem, São José, aos Santos Patronos.
Então aparecem os sinais de uma boa formação clerical, sinais que são os seguintes: uma sólida piedade mantida pelos exercícios comuns e pelas devoções tradicionais ao Santíssimo Sacramento, à Sagrada Paixão, ao Sagrado Coração de Jesus, à Santíssima Virgem, a São José, aos Santos Patronos da juventude eclesiástica; — uma conduta regular e disciplinada; — um respeitoso afeto para com os Superiores, para com o próprio Bispo e toda a Hierarquia; — e, particularmente, um entranhado amor ao Vigário de Cristo, o Papa reinante, auxiliando-o com a oração, tomando parte às suas alegrias e às suas dores e seguindo com fervorosa fidelidade as Suas diretivas.
Eis, Excelentíssimos Senhores Bispos, uma ligeira síntese das ideias [843/844] que esta Sagrada Congregação, zelosa do bom andamento dos Seminários, apresenta a Vossas Excelências, a fim de que delas possam fazer o uso que a prudência sugerir, segundo as necessidades existentes nos próprios Seminários.
Unindo de tal forma todas as nossas forças, formar-se-á para a gloriosa Igreja do Brasil, aquela falange escolhida de sacerdotes, que as necessidades atuais exigem.
Com esta confortante visão e à luz do Ano Santo, sentimo-nos feliz de saudar, muito cordialmente, o Episcopado Brasileiro.
Roma, 7 de março de 1950, na festa de Santo Tomás de Aquino.
Subscrevemo-nos atenciosamente
de Vossas Eminências e Excelências Reverendíssimas
— servo devotíssimo em Jesus Cristo
✠ José Card. Pizzardo, Prefeito.
✝ Carlos Confalonieri, Secretário.

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PARA CITAR ESTA TRANSCRIÇÃO:
Sagrada Congregação dos Seminários e das UniversidadesCarta ao episcopado brasileiro: Sobre o modo como se deve prover à reta formação do clero, 7-III-1950, AAS 42 (1950) 836-844; transcrito, com o acréscimo da tradução das citações em latim, no blogue Acies Ordinatahttp://wp.me/pw2MJ-1Rf
[Cf. também: Revista Eclesiástica Brasileira 10 (1950), 471-477; Revista Española de Teología 11 (1951) 41-55.
O original deste documento é em português mesmo, exceto pelo cabeçalho: Sacra Congregatio de Seminariis et Studiorum UniversitatibusEpistula ad Exmos. PP. DD. Cardinales atque Exmos. Archiepiscopos, Episcopos ceterosque Ordinarios Brasiliae: De recta clericorum institutione rite provehenda, e pelos passos em latim citados no corpo do texto; sua tradução, entre colchetes, foi acrescentada pelo editor do blogue, em cotejo com a tradução francesa deste documento que se encontra em: http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/es/ce0.htm#bg].