sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Sermão da Missa Votiva de Nossa Senhora de Lourdes, em Betim/MG: 500 anos da "reforma" protestante.

Ontem havíamos comentado que íamos dizer algumas palavrinhas sobre o tema de “Martin Lutero”. E vamos falar um pouco de Martin Lutero, em razão de que, faz pouco mais de uma semana, saiu em um site do Vaticano a notícia de que vão celebrar-se os 500 anos do reformador Martin Lutero, do herege Martin Lutero Vocês sabem que, no ano de 1517, o monge Martin Lutero, que era um monge agostiniano, que se rebelou contra Roma e pregou na porta de uma igreja suas 95 teses heréticas [vide aqui, mas cuidado, é um blog protestante!], e nestas 95 teses, dentre outras coisas, negava a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Eucaristia, negava que a Missa fosse um Sacrifício, negava que a Missa fosse propiciatória, que fosse em reparação dos nossos pecados, dava a livre interpretação das Sagradas Escrituras, e é por isso que Lutero abre a porta da livre interpretação da Bíblia, com a qual se origina a multidão de seitas protestantes que existe. Porque se você lê a Bíblia e interpreta em tal passagem tal coisa, diferente do que interpreta a Igreja Católica e o que interpreta qualquer outro grupo, você já pode fundar a sua própria igreja

E é assim que este homem, que realmente foi um blasfemo, um herege – por respeito ao Altar e por respeito a vocês, eu não posso dizer as barbaridades que este homem escreveu, por exemplo, blasfemando da Virgem, blasfemando de Nosso Senhor Jesus Cristo

E é lamentabilíssimo ver como, a partir, especialmente após o Concílio Vaticano II, com base num documento do Concílio Vaticano II, Unitatis Redintegratio, se trabalha pela unidade com os protestantes. A Igreja sempre trabalhou pela conversão dos protestantes, mas não para unir-nos a eles, tanto e quanto eles perseveram nos seus erros, suas heresias. E é assim que nos encontramos a notícia de que existe uma Comissão Luterano-Católica que está preparando a celebração dos 500 anos de Martin Lutero em Roma, no Vaticano

Então, como é possível isso? O texto diz que esta Comissão Luterano-católica tem lançado nova luz sobre as diferenças teológicas que existem entre Católicos e luteranos e esta nova luz está a suavizar e a procurar a união com os luteranos. Então, pareceria que esta Comissão Católico-luterana tem mais luz que a Luz do Espírito Santoque no Concílio de Trento condenou o protestantismo, condenou os erros protestantes, as heresias protestantes. Lembremos que Martin Lutero tem, pelo menos, 3 (três!) excomunhões: a primeira delas declarada pelo Papa Leão X. Então, quando vem agora uma Comissão que está “espalhando luz” sobre o problema de Lutero, pareceria que não houvesse luz com o Espírito Santo. Então, uma vez mais se cria um conflito se vamos estar com a Igreja Católica que condenou a Martin Lutero, que condenou as heresias de Martin Lutero, ou vamos estar com esta igreja nova que lança novas luzes – entre aspas – sobre heresias já condenadas pela Igreja de Cristo, a Igreja Católica.

Não podemos permanecer católicos se se diz que, agora, vamos seguir as "novas luzes" desta Comissão Luterano-Católica. Porque é blasfemar do Espírito Santo, blasfemar e dizer que o Espírito Santo então errou no século XVI a condenar o protestantismo e agora esta comissão de homens – mistura supostamente católicos com protestantes – tem mais “luz” e mais “poder” que o Espírito Santo.

E outra coisa, que realmente digo que estamos vivendo num quadro surrealista, é o fato de que os Católicos celebrem algo que é lamentabilíssimo, porque com Martin Lutero se rompe a unidade católica na Europa. Com Martin Lutero começam as guerras da Religião, a quantidade de mártires que surgiu na defesa da fé católica contra o protestantismo e agora temos que festejar este fato desgraçado do aparecimento deste Martin Lutero. Dizia na vez passada, acredito que os brasileiros perderam um campeonato de futebol em 1959 e creio que houve mais de 15 suicídios por isso. É como se os brasileiros festejassem a cada ano aquela derrota, aquela perda do campeonato mundial – LOUCO! – Ou que os polacos festejassem a invasão dos alemães na Polônia ou que os chineses festejassem a invasão dos japoneses em 1937 na China. Eu não entendo onde está a razão nisso.

E a razão está em que existem duas igrejas. Há uma Igreja que condena o protestantismo, que condena a heresia, uma Igreja que foi conduzida e é conduzida pelo Espírito Santo: a Igreja Católica, e existe uma igreja nova, uma igreja pós-conciliar, uma igreja que foi sustentada no alicerce de areia do Concílio Vaticano II, que se contrapõe em tudo que a Igreja Católica tem ensinado em 21 séculos! 

Então, queridos fiéis, uma vez mais observem como os católicos se foram protestantizando, como os católicos foram aceitando os erros modernistas, entre outras coisas, através da missa nova. A missa nova, como o mesmo Paulo VI disse, foi feita para agradar os protestantes [vide aqui, nota 118]. Esta foi a intenção da Missa Nova. E a Missa Nova manifesta claramente a teologia protestante: mudando o sentido de “Sacrifício” por “ceia”, fazendo tirar o sentido sacrifical, penitencial, na missa; que a missa é uma festa, que a comunhão é somente  um alimento, um símbolo. E assim temos sacerdotes supostamente católicos que dizem que a Eucaristia é somente um símbolo. Ai se vê claramente como os católicos foram protestantizados a partir do Concílio Vaticano II e, dentre outras coisas, por meio da missa nova. Claro, se a isso agregarmos o péssimo exemplo que deu o Papa João Paulo II, por exemplo, quando visitou o templo luterano em Roma, no ano de 1982 – se mal me lembro [foi em 11 de setembro de 1983, cf. aqui em italiano; Em 31 de outubro de 1999 (o 482º aniversário do Dia da Reforma, o dia em que Lutero pregou as 95 Teses), representantes do Vaticano e da Lutheran World Federation (LWF) assinaram a Declaração Conjunta Sobre a Doutrina da Justificação como um gesto de unidade. A assinatura foi fruto do diálogo teológico que vinha ocorrendo entre a LWF e o Vaticano desde 1965– onde João Paulo II disse que vinha para honrar a figura de Lutero, que foi um “homem de grande espiritualidade”. Um homem de uma grande espiritualidade que chegou a dizer que Jesus Cristo tinha adulterado com várias mulheres. Esse é um homem de grande espiritualidade. BLASFEMO! 

E depois, Bento XVI, que visitou a cidade natal de Lutero e plantou uma arvorezinha, e fizeram toda uma cerimônia, e João Paulo II que disse: “Venho a esta cidade como um peregrino” [Em janeiro de 2011, Bento envia uma árvore "católica" para fazer parte do Jardim de Lutero, em , como parte das comemoraçõesAqui a foto e a notícia em italianoEm setembro de 2011, Bento discursa em Erfurt, em um convento agostiniano DESATIVADO]. Disse João Paulo II! Ou seja, como a cidade de Lutero se fosse Assis ou qualquer outra cidade onde tenha sido famoso um santo. É terrível ver a defecção dos homens da Igreja e como eles, e com os seus maus exemplos, estão arrastando uma infinidade de almas ao erro luterano, ao erro protestante.

Então devemos ter bem claro: MARTIN LUTERO É UM HEREGE! E não um irmão separado. É um herege! Esta é a definição! Alguém que se rebela contra a Doutrina Católica, alguém que divide a Igreja. E neste documento se volta a falar de outro erro grande que é a afirmação de que: Com esta Comissão Luterano-Católica estamos trabalhando pela unidade da igreja. A Igreja é una sempre. Não existem várias igrejas. E se os luteranos  se separaram da Igreja é uma heresia, como um ramo morto, pronto, acabou! Mas a Igreja continua sendo una! Não existem múltiplas igrejas. É o que dizemos no Credo: Creio em Una, Santa, Católica, Apostólica Igreja

Então, guardemo-nos de todo o erro que nos assemelhe ou nos aproxime dos luteranos. É engraçado que, por um lado, João Paulo II chega a dizer que vem a venerar a Lutero por ser um homem de “grande espiritualidade” e depois, beatifica uma freira, mística alemã – creio que foi [trata-se da Beata Maria Serafina Micheli, uma italiana] –  que, dentre outras coisas, esta freira disse que viu no inferno Lutero. Que contradição! 

Bem, peçamos à Virgem Santíssima que nos fortaleça na nossa Fé Católica, peçamos pela conversão dos hereges para que voltem à única Igreja pela qual podemos ser salvos: A Igreja Católica! Para que se convertam os hereges, para que voltem a ter e reconhecer como Mãe a Virgem Santíssima, Mãe de Deus, e que nós saibamos defender a Fé Católica contra tanta heresia e tantos disparates modernistas. Ave Maria Puríssima!
Visto em: http://missaosagradafamilia.blogspot.com.br/2014/02/sermao-da-missa-votiva-de-nossa-senhora.html.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

A iminente revanche de Lutero? Vaticano irá comemorar os 500 anos da Reforma em 2017


Como venho vaticinando a meus botões desde que Bento XVI plantou aquela árvore em homenagem ao herético Martinho Lutero, ainda veremos esse crápula alçado às honras dos altares, como o "Santo da Reforma da Igreja de Cristo"! Ele que, segundo a História, morreu em fedor de pecado.


Essa conversa sobre as "comemorações" dos 500 anos da Reforma vêm desde então, jogadas na mídia, aqui e ali, para que o povo vá se acostumando. Ouviremos falar sempre mais nisso, e com argumento falaciosos sempre "melhores".

A Reforma, que foi combatida por Papa e por Santos durante 500 anos, foi tratada com muita displicência nos últimos séculos, com tolerância maligna. Renasceu no Concílio Vaticano II, e hoje já a vemos se tornar emancipada na Igreja de Francisco.

O católico médio não conhece sua Fé, não estuda a sua Doutrina, nem seu Catecismo. Sabe tudo sobre as celebridades e nada sobre os Santos. Acompanha cada capítulo dessas novelas licenciosas e não sabe sequer quem é o santo do dia. Conhece e defende os dogmas da modernidade - Evolucionismo, "é o mesmo Deus para todas as religiões", Direitos Humanos etc. - mas, além de não saber quantos e quais são os Dogmas de Fé Católica, não acredita mais que sejam Verdades Reveladas por Deus e, portanto, podem ser discutidos, opinados e, mais, de livre escolha de aceitação ou não, baseados em uma errônea compreensão do que seja o livre arbítrio.


O católico médio, aquele que não perde a Missa de domingo, onde extravasa a tensão da semana com as batições de palmas bem ao gosto dos protestantes, foi se acostumando a ser protestante, antes de ser doutrinado a ser protestante. O quadro, hoje, é assombroso. Você lhe expõe os fatos e ele consegue até acompanhar, mas quando você chega ao assunto "Papa Francisco" a coisa empaca. Paradoxalmente. Absurdamente. Sim, porque quando o Papa dizia que não pode usar camisinha, pílula e fazer aborto, o católico médio se dava ao direito de discordar dele, porque acha realmente que isso é um assunto que diz respeito ao indivíduo, e que a Igreja não deve opinar. Mas quando o Papa diz que Deus não é católico, que os muçulmanos devem estudar o Corão para fortalecer a Fé, que ele não pode julgar um gay, que não se deve converter os não católicos porque Deus salvará a todos..., o tal católico médio concorda, porque pensa que isso não "invade sua privacidade", e de certa forma isso não o atinge pessoalmente. Mala tempora currunt!

Enfim, vale a pena ler estas considerações, para que não nos tornemos insensíveis a elas, como o católico médio, o morno dos Evangelhos.

Fonte: PaleIdeas

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Questões Teológicas, n. 2, 5 de fevereiro de 2014

Fonte: SPES
C. N.

Os extratos que transcrevemos abaixo, da obra do Padre Álvaro Calderón A Candeia debaixo do Alqueire, têm grande importância para a maneira como trataremos no anunciado livro a questão do milenarismo – suposto sempre o analógico. 


* * *
O Milenarismo – II

«Quanto ao sujeito [do magistério eclesiástico], fala-se propriamente de “órgãos” do magistério, ou seja, instrumentos, assinalando que o poder ou autoridade é própria apenas de Cristo, Mestre principal, e que qualquer outro a possui de maneira instrumental.[1] Se consideramos o sujeito quanto à maneira de participar da autoridade, é preciso distinguir órgãos autênticos e subsidiários. Os órgãos autênticos participam da autoridade de maneira habitual e própria, e os subsidiários, transeunte e delegada. Só os primeiros podem dizer-se propriamente “mestres” na Igreja.[2] Considerando os órgãos autênticos quanto a seu sujeito último – as pessoas –, convém distinguir o Papa dos bispos. No Papa a autoridade magisterial reside de modo pleno, e nos bispos de modo não pleno. Considerados, em contrapartida, como sujeitos em ordem aos atos, é preciso distinguir quatro sujeitos: o Papa sozinho, o Papa com os bispos reunidos em concílio, os bispos dispersos em comunhão com o Papa, os bispos sozinhos. Essas distinções são necessárias quando se tem de tratar a natureza dos atos. Com respeito aos órgãos subsidiários, é preciso distinguir os papais dos episcopais. Os que recebem delegação imediatamente do Papa participam mais plenamente que os que a recebem dos bispos. Também cabe distinguir segundo a condição das pessoas, se se trata de simples fiéis ou se são qualificados por algum tipo de autoridade cristã, sejam teólogos, catequistas ou chefes de família.


* * *


Os atos do governo eclesiástico – como, em sua ordem, os de qualquer governo – são legítimos e efetivos na medida em que são atualmente informados pela doutrina do magistério, à maneira como os atos do corpo são vitais se forem informados e movidos pela alma:
• Esta informação pode ser mais ou menos íntima segundo a natureza de cada ato. Mais íntima nos atos de governo com objetos mais universais: intimíssima nos que têm objeto doutrinal, muito íntima nos relativos ao culto, íntima nas leis mais gerais. Os atos de governo com objetos mais particulares guardam como que certa distância do juízo doutrinal que os regula, sempre universal, tendo uma vinculação mais ou menos estreita segundo sua relação com a doutrina: estreitíssima na aprovação de um concílio ou numa excomunhão por heresia, muito estreita numa canonização, estreita na aprovação de uma aparição, pouco estreita numa excomunhão por crime.
• Mas o vigor legal de cada um dos atos de governo não depende somente de sua proximidade ou permeabilidade com respeito à doutrina, mas também e principalmente do maior ou menor grau de autoridade doutrinal que a Hierarquia, em uso de seu poder de magistério, comunicar ao juízo doutrinal que informa tais atos de governo; à maneira como o brilho de um corpo não depende somente da maior ou menor capacidade de refletir a luz, mas também e principalmente da maior ou menor intensidade da fonte de luz que o ilumina.»




[1] Assinalar isto é fundamental para a teologia do magistério da Igreja, e ainda mais se se leva em consideração a profundidade e riqueza com que Santo Tomas desenvolveu a metafísica da causalidade instrumental.
[2] O título de mestres lhes é predicado com analogia de atribuição intrínseca com relação ao Mestre Jesus Cristo.

Questões Teológicas, n. 1, 1 de fevereiro de 2014

Fonte: SPES


C. N.


Como anunciado em diversos lugares, publicar-se-á este ano um livro nosso com duas questões disputadas: a primeira, sobre a Parusia; a segunda, sobre o papa herético. Pois bem, a partir de hoje e sob o título Questões Teológicas, publicaremos no blog do SPES alguns dos principais documentos e textos em que se funda nossa posição em ambas as disputas. Por vezes, quando convenha, também publicaremos textos e documentos em que se fundam as teses adversárias.
Algumas outras considerações:
a) Tais documentos e textos, como convém com o que se disputa nas referidas questões, tratam:
• o sentido da história;
• o milenarismo;
• a tese do venerável Holzhauser, etc.;
• jurisdição e sedevacância;
• a tese de uma só Hierarquia para duas Igrejas;
• o chamado “magistério conciliar”;
• os sacramentos da chamada “Igreja conciliar”;
• etc.
b) Como em nossas questões disputadas sempre nos fundaremos – como devido e nesta ordem – no magistério da Igreja, na doutrina de Santo Tomás Aquino e no que haja de unânime entre os outros Doutores, naturalmente os textos e documentos que se publicarão no SPES serão, majoritariamente, ou do magistério, ou de Santo Tomás, ou de outros Doutores, ou ainda de quaisquer que os sigam ou reflitam.
c) Tais documentos e textos se publicarão, em princípio, ou em português e espanhol, ou só em espanhol.
d) O ritmo de sua publicação não será regular.

Comecemos, pois, pelos documentos e textos relativos à Parusia.

O Milenarismo – I

“O sistema do Milenarismo mitigado
não pode ser ensinado sem perigo”

Suprema Sagrada Congregação do
Santo Ofício

Condenação do milenarismo mitigado

(Decreto de 19-21 de julho de 1944.
A.A.S., XXXVI, 1944, p. 212.)

I. Tradução em português,
seguida do original, em latim:

Nos últimos tempos, mais de uma vez se perguntou a esta Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício o que se deve pensar do Milenarismo mitigado, que ensina que o Cristo Senhor, antes do Juízo Final, ocorra ou não antes a ressurreição de muitos justos, virá visivelmente a esta terra para reinar.
Tendo examinado o tema na reunião plenária da quarta-feira, 19 de julho de 1944, os Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais encarregados de velar pela pureza da fé e dos costumes, depois de ouvir a opinião de seus consultores, decretaram responder: o sistema do Milenarismo mitigado não pode ser ensinado sem perigo.
E, no dia seguinte, quinta-feira, 20 do mesmo mês e ano, o Santíssimo Senhor Nosso Pio XII, Papa pela Divina Providência, na habitual audiência concedida ao Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Assessor do Santo Ofício, aprovou, confirmou e mandou publicar esta resposta dos Eminentíssimos Padres.
Dado em Roma, no Palácio do Santo Ofício, no dia 21 de julho de 1944.

[Postremis hisce temporibus non semel ab hac Suprema S. Congregatione S. Officii quaesitum est, quid sentiendum de systemate Millenarismi mitigati, docentis scilicet Christum Dominum ante finale iudicium, sive praevia sive non praevia plurium iustorum resurrectione, visibiliter in hanc terram regnandi causa esse venturum.
Re igitur examini subiecta in conventu plenario feriae IV, diei 19 Iulii 1944, Emi ac Revmi Domini Cardinales, rebus fidei et morum tutandis praepositi, praehabito RR. Consultorum voto, respondendum decreverunt, systema Millenarismi mitigati tuto doceri non posse.
Et sequenti feria V, die 20 eiusdem mensis et anni, Ssmus D.N. Pius divina Providentia Papa XII, in solita audientia Excmo ac Revmo D. Adsessori S. Officii impertita, hanc Emorum Patrum responsionem approbavit, confirmavit ac publici iuris fieri iussit.
Datum Romae, ex Aedibus S. Officii, die 21 Iulii 1944.]

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II. Comentário autorizado concomitante;
tradução seguida do original, em francês:

ERRO MILENARISTA
(in: Nouvelle Revue Théologique,
n.º 67, de 1945, pp. 239-241.)

Como dão a entender as primeiras palavras do documento, este decreto fora precedido de uma resposta do Santo Ofício, datada de 11 de julho de 1941, ao Arcebispo de Santiago do Chile, onde o erro milenarista parecia propagar-se com muita força, graças – entre outras causas – a uma renovação do interesse pelo livro “Venida del Mesías en gloria y majestad”, obra póstuma de J. J. Ben-Ezra (pseudônimo de Manuel Lacunza) que já havia sido posta no Índex em 1824. Essa resposta se encontra reproduzida e comentada no número de 15 de abril de 1942 dos “Periodica” (t. 31, p. 166-175). O decreto atual a retoma, omitindo porém esta restrição: “secundum revelationem catholicam”, que se lia após as palavras: “docentis scilicet”, e substituindo “corporaliter” por “visibiliter”.
O decreto afirma, portanto, que o milenarismo (ou quiliasmo), mesmo mitigado ou espiritual, segundo o qual Cristo retornaria de forma visível à terra, para nela reinar, antes do juízo final, precedido ou não pela ressurreição de certo número de justos, [o decreto afirma] que uma tal doutrina não pode ser ensinada sem imprudência relativamente à fé. Como a resposta de 1941 acrescentava: “Excellentia tua enixe vigilare curabit ne praedicta doctrina sub quocumque praetextu doceatur, propagetur, defendatur vel commendetur sive viva voce sive scriptis quibuscumque” [N. do T. – “Vossa Excelência tratará de vigiar com cuidado para que a mencionada doutrina não seja, sob pretexto algum, ensinada, propagada, defendida ou recomendada, nem de viva voz nem por tipo nenhum de escrito, seja qual for.”], o “doceri” não deve ser entendido somente de um ensino ou pregação públicos, mas de todo meio de propagar ou recomendar a teoria. O decreto tem, ademais, alcance doutrinal e implica que a própria teoria não é segura do ponto de vista da fé.
É sabido que o milenarismo, herdado do judaísmo, encontrou, nos primeiros séculos da Igreja, ecos entre os cristãos e mesmo em certos Padres, Papias, São Justino, Santo Ireneu, Tertuliano, Santo Hipólito foram em graus diversos milenaristas. Mas, entre outros, Orígenes, São Dionísio de Alexandria e, sobretudo, São Jerônimo e Santo Agostinho opuseram-se a essa doutrina e, já “no Concílio de Éfeso, nomeia-se o milenarismo: as divagações e os dogmas fabulosos do infeliz Apolinário”… “Embora o quiliasmo não tenha sido qualificado de heresia, a sentença comum dos teólogos de todas as escolas vê nele uma doutrina ‘errônea’ à qual certas condições das idades primitivas puderam arrastar alguns antigos Padres” (Cf. E.-B. Allo, O. P., Saint Jean, L’Apocalipse, 3.ª edição, pp. 307-329). A fé da Igreja não conhece senão duas vindas de Cristo e não três. O principal texto sobre o qual se apoiam os milenaristas é o difícil capítulo 20 do Apocalipse de São João; mas, seja qual for o seu sentido, debatido entre exegetas, a interpretação milenarista não é mantida por nenhum comentador católico.

G. GILLEMAN, S.I.

[Comme les premiers mots du document le laissent entendre, ce décret avait été précédé d’une réponse du Saint-Office, en date du 11 juillet 1941, à l’Archevêque de Saint Jacques, au Chili, où l’erreur millénariste semblait se propager assez fort, grâce, entre autres causes, à un renouveau d’intérêt pour le livre « Venida del Mesias en gloria y Majestad » œuvre posthume de J. J. Ben-Ezra (pseudonyme de Manuel Lacunza) déjà mis à l’index en 1824. On trouvera cette réponse reproduite et commentée dans le numéro du 15 avril 1942 des « Periodica » (t. 31, p. 166-175). Le décret actuel la reprend en omettant cependant cette réstriction : « secundum revelationem catholicam », qui se lisait après les mots : « docentis scilicet », et en remplaçant « corporaliter » par « visibiliter ».
Le décret affirme donc que le millénarisme (ou le chiliasme), même mitigé ou spirituel, selon lequel le Christ reviendrait de façon visible sur terre, pour y régner, avant le jugement dernier, précédé ou non de la résurrection d’un certain nombre de justes, qu’une telle doctrine ne peut être enseignée sans imprudence relativement à la foi. Comme la réponse de 1941 ajoutait : « Excellentia tua enixe vigilare curabit ne praedicta doctrina sub quocumque praetextu doceatur, propagetur, defendatur vel commendetur sive viva voce sive scriptis quibuscumque », le « doceri » ne doit pas s’entendre seulement d’un enseignement ou d’une prédication publics mais de tout moyen de propager ou recommander la théorie. Le décret a d’ailleurs une portée doctrinale et implique que la théorie elle-même n’est pas sûre au point de vue de la foi.
On sait que le millénarisme, hérité du judaïsme, trouva, dans les premiers siècles de l’Eglise, des échos chez les chrétiens et même auprès de certains Pères, Papias, saint Justin, saint Irénée, Tertullien, saint Hippolyte furent à des degrés divers millénaristes. Mais, parmi d’autres, Origène, saint Denys d’Alexandrie et surtout saint Jérôme et saint Augustin s’opposèrent à la doctrine et déjà « au Concile d’Ephèse, on nomme le millénarisme : les divagations et les dogmes fabuleux du malheureux Apollinaire»... «Quoique le chiliasme n’ait pas été noté d’hérésie, le sentiment commun des théologiens de toute école y voit une doctrine « erronée » où certaines conditions des âges primitifs ont pu entraîner quelques anciens Pères» (cfr E.-B. Allo, O. P., Saint Jean, L’Apocalipse, 3e édition, p. 307-329). La foi de l’Église ne connaît que deux avènements du Christ et non pas trois. Le principal texte sur lequel s’appuyaient les millénaristes est le difficile chapitre 20 de l’Apocalypse de saint Jean ; mais quel qu’en soit le sens, discuté entre exégètes, l’interprétation millénariste n’est retenue par aucun commentateur catholique.

G. GILLEMAN, S.I.]

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Fonte: http://aciesordinata.wordpress.com/2012/08/31/a-voz-de-roma-v/.