quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ao Criador caberá sempre a vitória!

     "Qual seja o desenlace desse combate contra Deus empreendido por fracos mortais, nenhum espírito sensato poderá duvidar. É certamente fácil, para o homem que quer abusar da liberdade, violar os direitos e a autoridade suprema do Criador; mas ao Criador caberá sempre a vitória. Digamos mais: a derrota se aproxima do homem justamente quando mais audaciosamente se ergue certo do triunfo. E é disto que Deus mesmo nos adverte: "Ele fecha os olhos para os pecados dos homens" como que esquecido de seu poder e de sua majestade, mas logo depois desse aparente recuo, despertando como um homem cuja força a embriaguez aumentara, ele esmagará a cabeça de seus inimigos, a fim de que todos saibam "que o Rei da terra inteira é Deus" e que os povos compreendam que não são senão homens". (O Século do Nada, Conclusão)


Motivos para celebrar o mês de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório


Acompanhem diariamente no blog Vas Honorabile (clique para acessar), durante o mês de maio, meditações sobre a Santíssima Virgem Maria, por Santo Afonso de Ligório. 

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"Hoje tive meu coração todo repleto de uma alegria celeste... Ontem á noite eu rezei tanto á Santíssima Virgem pensando que o seu belo mês ia começar!"

(Santa Teresinha do Menino Jesus, Novíssima verba, 1° de Maio de 1897)

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Motivos para celebrar o mês de Maria
(Santo Afonso de Ligório)

Nossa Sra. do Rosário, Miguel Cabrera


“Mensis iste vobis principium mensium: primus erit in mensibus anni – Este més será para vós o princípio dos meses: será o primeiro dos mezes do anno” (Ex. 12, 2).

Summario. Seja qual for o estado da tua alma, sempre tens motivos especiaes para celebrar bem o mez de Maria. Se és innocente, deves faze-lo para que a divina Mãe te conserve sempre tal; se és peccador, para que te ajude a levantar-te; se és penitente, para que te obtenha a santa perseverança. Para praticares bem este santo exercício, imagina-te que terás de morrer no princípio de junho, e emprega todo o més de maio em te preparar a morte, especialmente pelo cumprimento exacto dos deveres to teu estado.


I. Mui grande é a necessidade que tens da protecção de Maria para a tua salvação. És innocente? Lembra-te que trazes o thesouro da innocencia em vasos frágeis de barro, e que estás em perigo continuo de o perderHabemus thesaurum istum in vasis fictilibus (2Cor. 4, 7). Quantos, mais innocentes do que tu , cahiram depressa em peccado e se perderam! Quantos ficaram amigos de Deus durante muitos mezes, e até annos, e em seguida perderam a graça de Deus e naufragaram exactamente quando estavam para entrar no porto! – Isto tem acontecido não só a pessoas engolfadas em negócios temporaes, nos prazeres do mundo; outras retiradas na solidão, exhaustas pelos jejuns, extenuadas pelos trabalhos, levavam vida austera e penitente, e todavia cahiram victimas infelizes do peccado, talvez por um olhar, por um pensamento! Ve, pois, que também a tua innocencia não te pode dar segurança.

És peccador? Sabe então que sem um auxílio poderoso te é impossível levantar-te do abysmo em que cahiste. O peccado tirou-te as forças: a natureza corrompida, os hábitos inveterados, as ocasiões perigosas prendem-te fortemente á terra. E quem te defenderá contra a ira de Deus, que já está talvez com a espada levantada? Quem te livrará de tantos perigos? Quem te salvará no meio de tantos inimigos?

Se porventura já te levantaste do peccado, não precisas menos de amparo. Quem te assegura que não tornarás a cahir? Quem te assegura que serás fiel até á morte? Já mais de uma vez voltaste a Deus e mais de uma vez tornaste a peccar. Ah! Se não fosse Maria, estarias talvez irreparavelmente perdido!

Pois, bem: com a devoção deste mez de Maria, podes obter o seu patrocínio e a tua salvação. Será possível que uma Mãe tão terna deixe de attender a um seu filho devoto? Se por causa de um Rosário, de um jejum Ella tem concedido favores assignalados aos mais grandes peccadores, de certo não t’os negará, se a servires durante um mez inteiro. – Mas ai de ti, se perderes a presente graça! Ai de ti se, começando bem, depois de poucos dias refrouxares! Quem sabe se não é este o último convite que Deus te faz? A última occasião para te converteres? Quem sabe se a este exercício não está ligada a tua perseverança final?... E, além disto, quem sabe se não é este o último anno, o ultimo mez da tua vida? Pensa nisto seriamente e resolve-te.

II. Seja o fructo desta meditação a mais fervorosa celebração deste mez de Maria, preparando-te para a morte como se realmente te fora revelado que o presente mez é o último da tua vida e que terás de morrer nos primeiros dias de junho. Em vez de augmentar o número dos teus exercícios de devoção, procura antes fazer acções do costume com mais perfeição, e cumprir com todo o rigor os deveres do teu estado.

Para esse fim, levanta-te logo, quando for hora de levantar, para não começar o dia com um acto de preguiça, e consagra-te inteiramente á divina Mãe. Faze a tua meditação com mais fervor, ouve cada manhã uma Santa Missa, e durante o dia, conforme o permittirem as tuas occupações, lê algum tempo sobre as Glórias de Maria, ou em outro livro espiritual; faze uma visita a Jesus sacramentado e conserva-te continuamente na presença de Deus pelo uso frequente das orações jaculatórias. Examina sobretudo a tua consciência, e, se achares alguma cousa que te possa incommodar na hora da morte, ajusta-a quanto antes por meio de uma boa confissão; e durante todo este mez guarda-te de commetter peccados veniaes plenamente deliberados. Depois, não deixes de praticar com exactidão algum obsequio especial que te proponhas fazer em honra de Maria Santíssima e invoca-a sempre em tuas necessidades, particularmente com o bello título de Mãe do Perpétuo Soccorro.

Santíssima Mãe de Deus e Mãe da misericórdia, eis-me aqui na vossa presença e na de vosso divino Filho, para vos tributar as minhas homenagens, vos louvar com a minha língua e vos venerar com o meu coração. Illuminae Senhora, o meu espírito, inflammae a minha vontade, afim de que vos possa offerecer dignamente o tributo da minha servidão, para maior glória de Deus, para honra vossa e proveito da minha alma.

*Grifos meus.

(Livro: Glórias de Maria - Santo Afonso Maria de Ligório)

30 de abril: Santa Catarina de Sena


Santa Catarina de Sena
30 de abril

Dolci, Carlo - St. Catherine of Siena

Santa Catarina, natural de Sena, na Toscana, viu a luz do mundo em 1347, última na série de 25 filhos do tintureiro Benincasa. Dotada de grande inteligência e favorecida pela natureza, era entre as irmãs a predileta. Educada com muito esmero, Catarina deu provas bem claras de grande virtude. Criança ainda, de sete anos, dedicou-se de um modo especial à Santíssima Virgem e fez o voto de virgindade. Embora de constituição delicada, sua ocupação predileta era a oração, o silêncio e pequenas mortificações. Tais exercícios não acharam o agrado dos pais. Estes, para distrair mais a menina, dispensaram a empregada e confiaram a Catarina os trabalhos dela. Deus protegeu-a e deu-lhe força para aguentar as pirraças, provocações e censuras das irmãs. . . “Deus — assim escreve ela mesma — ensinou-me a construir em minha alma uma solidão, para a qual me pudesse retirar; ao mesmo tempo me prometeu uma paz e tranquilidade imperturbável”.

Para satisfazer a um desejo dos pais, de ajeitar-se mais ao mundo e atendendo a um pedido da irmã Boaventura, vestiu-se com mais esmero. Logo, porém, que esta irmã morreu, voltou ao modo anterior de vida. Não satisfeita ainda com isto tomou o hábito da Ordem Terceira de São Domingos. Da parte dos pais nenhuma contradição experimentou. Seguiram-se três anos da mais dura penitência e mais inclemente mortificação.

Deus permitiu que a donzela, durante todo este tempo, fosse atormentada pelas mais terríveis tentações contra a santa pureza, porém, pela oração, humildade e mortificação, conseguiu vencer o espírito mau.

“Onde estava meu divino Esposo — assim se dirigia depois a Jesus Cristo — quando minha alma se achava mergulhada em tantas misérias?” — “Essa impureza — confirmou lhe a voz do Salvador — não te manchou nem de leve, porque resististe resolutamente; por isso mesmo o combate que tiveste, foi para tua alma uma fonte de grandes merecimentos; ganhastes a palma da vitória, devido à minha presença”.

Grande era a sua caridade para com os pobres. O tratamento de duas mulheres doentes proporcionou-lhe ocasião bastante para praticar a paciência. Longe de colher reconhecimento, foi paga com ingratidão. Uma daquelas infelizes, apoiada por uma religiosa, chegou ao ponto de difamar e caluniar a generosa benfeitora. Catarina nenhuma palavra de defesa proferiu, mas entregou tudo a Deus Nosso Senhor. E Deus tomou a si a defesa de sua serva. A caluniadora converteu-se, e revogou todas as invenções maldosas feitas contra a Santa.

Catarina juntava às obras de misericórdia a oração pelos que socorria, para que não lhes faltasse a graça divina.

Muitos pecadores deveram à sua intercessão a volta ao caminho da virtude. Muitas inimizades foram desfeitas pela intervenção caridosa de Catarina.

Quando, em 1374, a peste avassalou o país, Catarina, com uma generosidade heroica, dedicou-se ao serviço dos pobres doentes e ganhou muitas almas para o céu. Pela oração alcançou a conversão de muitos. Deus lhe deu o dom de atrair os corações em tão alto grau, que o Papa Pio II chegou a afirmar: “Ninguém se aproxima de Catarina, sem tornar-se melhor”.

Conversões estupendas foram a prova do poder que Catarina exercia, sobre corações de grandes malfeitores.

Outros exímios privilégios, que Deus concedeu à sua serva, mostram a grande santidade da mesma. Durante o espaço de 80 dias seu único alimento era a Santa Comunhão. Uma só palavra da sua boca curava doentes e expulsava maus espíritos.

Deus lhe determinou uma missão única, singularíssima e tão extraordinária na vida da Igreja, que podia parecer fantástica, se não tivesse sido real, e como tal reconhecida e respeitada por milhares de pessoas, inclusive pelas mais altas autoridades. A atividade desta Santa, em executar os planos de Deus, como conhecemos também a de Santa Joana d'Arc, põe em evidência a palavra de São Paulo: “Deus escolheu o que é estulto aos olhos do mundo, para confundir os sábios. E o que é fraco, aos olhos dos fortes, Deus o escolheu para confundir o que é poderoso, e que ninguém se glorie diante dele" (1 Cor l, 27).

Na Luz Perpétua, Catarina, a pobre filha de um tintureiro, em nada se distinguiu das de Sena. Bem tarde ela aprendeu a ler e escrever, e como parece, por jovens auxílio sobrenatural. No mais representa o tipo característico do povo da sua terra: inteligente, franco, corajoso, intemerato, fiel, ativo, caridoso e piedoso.

Logo depois de ter saído da sua solidão, em seu redor se agruparam almas seletas, homens, mulheres e sacerdotes. Catarina era a sua mestra, e ela era quem presidia as reuniões que realizavam no Hospital della Scala. Era no ano de 1370, que de todas as partes da Itália vinham a Sena centenas de pessoas desejosas de ver Catarina, com ela falar, de a consultar, de ouvir uma palavra de conforto, de consolo e de se converter. Os sacerdotes que a acompanhavam, foram aprovisionados de faculdades extraordinárias, para absolver os penitentes. Entre os convertidos figuravam personagens importantes das cidades vizinhas; uma delas, o tabelião Anastácio de Montecino, escreve: “Nunca julguei poder contemplar na terra tão grande maravilha! Esta bem-aventurada constitui um obstáculo a todos os vícios e os põe em fuga... Seu olhar constantemente fixo no céu, está sempre velado por lágrimas de compaixão. É tão bondosa que de bom grado daria seu sangue para salvar àqueles que sinceramente arrependidos, dizem “Miserere!” “Cheia do Espírito Santo, um coração ardente de caridade, a serva de Deus escrevia um sem número de cartas, cartas edificantes, sublimes, inigualáveis em que dizia a verdade, tal qual a via e conhecia”.

O tempo de Catarina coincidiu com dias agitadíssimos para a sua cidade, dias de humilhação, de perturbações sérias, que de rica e poderosa que era, a levaram à beira do abismo, política e economicamente. No ano de 1368 estalou uma turbulenta revolução, que degenerou em completa anarquia, tendo por resultado a sua rendição ao terrível demagogo Bernabó Visconti de Milão. No meio das agitações, da luta, do ódio e desespero, Catarina apareceu como o anjo da conciliação, da paz, do consolo. Sua família passou pela dura provação de perder toda a sua fortuna. Um criminoso político condenado à morte, impenitente que se mostrava, achando-se na presença de Catarina, não pôde resistir ao poder misterioso das palavras da santa donzela, confessou-se e teve o consolo, de por ela ser acompanhado até o lugar do patíbulo.

Onde suas palavras não podiam chegar, iam as suas cartas de admoestação, de petição e de ameaça, até ao próprio Visconti e aos terríveis chefes dos bandoleiros.

Grande e extraordinária foi a atividade pacificadora de Catarina na própria Igreja. Desde o ano de 1305 o Papa residia em Avignon. Os Estados eclesiásticos na Itália eram administrados por Legados, não raras vezes franceses, que não sabiam lidar com o povo italiano, que por sua vez se mostrava mal satisfeito com tal sistema de governar. As coisas chegaram a ponto de várias cidades pontifícias se declararem abertamente contra o poder temporal do Papa. A República Florença e o duque milanês Visconti na frente tudo fizeram para fomentar a rebelião. Gregório XI respondeu lançando o interdito contra a República. Esta, profundamente humilhada com a medida rigorosíssima do Papa, sentindo sobretudo os efeitos desastrosos da mesma na sua vida comercial, a Catarina se dirigiu, implorando sua intervenção junto ao Papa. Catarina aceitou a incumbência, e com grande comitiva de religiosas, religiosos e fidalgos de Pisa e Sena foi a Avignon. O Papa recebeu-a em grande audiência.

Catarina usou da palavra com grande respeito, e com não menos franqueza expôs a situação da Igreja no meio do turbilhão político. Insistiu sobre três coisas de alto alcance: 1. sobre a volta do Papa para Roma; 2. sobre a reforma da vida dos eclesiásticos; e 3. sobre as pazes com Florença.

Gregório de fato se resolveu a deixar Avignon, e em 1377 fez sua entrada solene em Roma, onde foi recebido com grande júbilo da parte de todos os italianos e da cristandade em geral. O restabelecimento da paz com Florença encontrou ainda sérias dificuldades, dadas as condições inaceitáveis postas pela República. Uma segunda viagem que Catarina por ordem do Papa fez àquela cidade, pôs em sério perigo a vida da Santa, que por pouco ia ser linchada pela população fanatizada.

Embora com dificuldade, a pacificação ganhou terreno. Gregório XI teve morte, repentina, e com o seu sucessor, Urbano VI os Florentinos torturados por remorsos de consciência e pela miséria, que lhes batia às portas, entraram em entendimento com a Santa Sé.

Na Igreja mesma, porém, as coisas não eram boas. Os cardeais franceses, não se conformando com certas medidas de rigor e severidade de Urbano VI, procederam à eleição de um Anti-Papa. que adotando o nome Clemente VII fixou sua residência novamente em Avignon.

Catarina sofreu muitíssimo com este desastre. Fiel ao Papa legítimo, tudo fez para conjurar o mal. Em obediência a uma ordem de Urbano VI foi a Roma e em pleno consistório usou da palavra. Disse depois o Papa aos cardeais: “Esta mulherzinha nos envergonha a nós todos: nós nos amedrontamos e nos calamos enquanto ela que, por natureza, pertence ao sexo fraco, não sente o menor receio e até mesmo nos encoraja". — A todos os príncipes Catarina dirigiu cartas, em favor do Santo Padre. As coisas mudaram efetivamente, e se a Itália permaneceu firme ao lado do Pastor legítimo, é de grande parte devido à grandiosa atividade da Santa.

A esta não foi dado observar o fruto do seu apostolado e não mais foi testemunha de outros tristes acontecimentos causados pelo cisma. 33 anos apenas de idade, não mais resistiu aos embates de tão grande calamidade; e ao acometimento de uma doença grave. Durante oito semanas foi obrigada a conservar-se em seu leito, e seus sofrimentos eram tais, que somente um prodígio fazia com que pudesse resistir. Mas apesar de atormentada pelas dores mais cruéis, irradiava da sua fisionomia, como do rosto de um anjo, uma piedosa e santa alegria. A sua morte foi edificantíssima. Suas últimas palavras foram: “Tu me chamas, Senhor, e a ti eu vou. Vou a ti, não pelos meus próprios méritos, mas unicamente graças a tua misericórdia que eu imploro em virtude do teu sangue. Pai, em tuas mãos entrego meu espírito”. E com o rosto radiante como o de um anjo, inclinou suavemente a cabeça, e exalou o último suspiro, aos 29 de abril de 1380.

O Papa Pio II canonizou-a em 1461 e Urbano VIII marcou-lhe a festa para o dia 30 de abril.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A Devoção ao Sagrado Coração de Jesus e a Contra-Revolução



MÁRTIRES E HERÓIS DO

SAGRADO CORAÇÃO

Péricles Capanema Ferreira e Melo

     Uma devoção que desperta o ódio dos ímpios

     “Quase sempre, os inimigos do Sagrado Coração foram os inimigos da Igreja”— constatou com lucidez o grande historiador da devoção ao Coração de Jesus, Padre Augusto Hamon S.J. [1]

     Esse ódio, que se manifestou já na época de Santa Margarida, foi particularmente virulento durante a Revolução Francesa, durante a qual muitos devotos do Sagrado Coração foram martirizados.

Em 7 de agosto de 1037 o ódio comuno-socialista promoveu o simbólico fuzilamento da estátua do Sagrado Coração

     Mais tarde estourou nos sequazes do socialismo e do comunismo, que manifestaram em inúmeras ocasiões sua ira durante os séculos XIX e XX. O episódio mais simbólico do ódio comuno‑socialista ao Sagrado Coração deu‑se em 1936: foi o fuzilamento e destruição por dinamite da majestosa estátua do Sagrado Coração, fincada no cume do Cerro de los Angeles, nas imediações de Madrid. Ela exercia do alto do monte uma espécie de reinado moral sobre a Espanha.

     Uma devoção militante

     O ódio dos maus apresentou, pela primeira vez, uma nota sangrenta durante a Revolução de 1789. Naqueles tristes dias, dois fatores, de natureza oposta, atuaram concomitantemente. De um lado, os católicos perseguidos pela Revolução, movidos por um instinto sobrenatural, refugiavam‑se na devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Simetricamente, o instinto revolucionário percebia que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus representava um sintoma de resistência irredutível.

     Esses anos de tragédia deixaram ver uma nota própria da devoção: sua militância. Todos percebiam que os devotos do Sagrado Coração eram então atacados, caçados e, quando possível, eliminados. Essas características militantes da devoção ao Coração de Jesus, não tivesse havido o impacto do ódio revolucionário, poderiam ter passado despercebidas para muitos.

     Tais características se firmaram com o tempo e ganharam nitidez durante o século XIX — chamado o século do Sagrado Coração —quando o culto ao Sagrado Coração esteve marcado por uma piedosa e militante recusa aos princípios da Revolução Francesa.


     As “salvaguardas”, proteção nas calamidades

Salvaguarda ou Escudo do Sagrado Coração de Jesus — também conhecido como bentinho ou detente

     Já antes dessa revolução eram largamente difundidas as salvaguardas, um pequeno escudo ou distintivo branco ou vermelho, geralmente de algodão, com a estampa do Sagrado Coração. Em português, são comumente chamadas de bentinhos. Passaram, a partir de certa época, a vir acompanhados da inscrição “Alto! O Sagrado Coração está comigo. Venha a nós o Vosso Reino!” [2]

     Sua origem remota parece estar na prática aconselhada por Santa Margarida Maria, de ter consigo uma estampa do Sagrado Coração.

     Mais proximamente, em Marselha, por ocasião de uma peste  terrivelmente mortífera, em 1720, a Bem‑aventurada Ana Madalena Remuzat (1696‑1730) — monja visitandina, continuadora da obra de Santa Margarida Maria — estimulou esse uso piedoso. A estampa vinha rodeada pelas palavras: “Ó Coração de Jesus, abismo de amor e de misericórdia, eu ponho toda a minha confiança em Vós”. Essa prece, pedindo proteção, representava uma salvaguarda contra as devastações da peste. A terrível epidemia muitas vezes se deteve diante deste escudo. A partir daí, a salvaguarda — ou bentinho — foi muito usada como proteção contra outras formas de calamidade.
     
As “salvaguardas”, sinal de oposição à Revolução Francesa

     Sendo a Revolução Francesa um flagelo público, uma calamidade social e religiosa, era natural que as pessoas piedosas se voltassem para o Sagrado Coração, pedindo proteção. Especialmente visadas pelas perseguições, as pessoas da Corte voltaram‑se de maneira particular para o Coração de Jesus. Rezava‑se ali então para que Ele protegesse a França, a Igreja e a instituição da família, que pareciam sem forças diante da tempestade revolucionária que desabava sobre elas.

     A devoção foi praticada na Família Real, ameaçada na honra, assim como no patrimônio e na vida. Manifestaram devoção pelo Sagrado Coração, naqueles dias difíceis, o Rei Luís XVI, a Rainha Maria Antonieta, a filha do casal real, Princesa Maria Teresa, a irmã do Rei, Madame Elisabeth e a Princesa de Lamballe, amiga da Rainha, entre outras pessoas principais da Corte. Segundo um jornal da época, a estampa do Sagrado Coração “era o emblema de um grupo, uma espécie de palavra de ordem, que a Princesa de Lamballe e outras senhoras da Corte usavam também, mas bordada com elegância sobre pedaços de tecido de várias cores”. [3]

     Para os sacerdotes, ter consigo a salvaguarda era o mesmo que se declarar não-juramentado (isto é, que não havia jurado a iníqua Constituição Civil do Clero); para os leigos, significava ser contra‑revolucionário ou amigo dos aristocratas perseguidos. Uma palavra de ordem dos jacobinos, enviada a todas as municipalidades francesas, advertia que, pela imagem do Sagrado Coração de Jesus, se reconheceriam os membros do “partido contra‑revolucionário”.

     "Milhares de pessoas — afirma o Pe. Gaugain  de todas as condições sociais e dos dois sexos foram detidas, levadas às Comissões Revolucionárias e lançadas na prisão, seja por haverem confeccionado, seja por portarem o símbolo mais expressivo do amor de Deus pelos homens”, isto é, a estampa do Sagrado Coração.[4] E muitas entre elas foram mortas. Foi o que sucedeu a Madame de Biliais e a suas filhas, as quais tiveram a cabeça cortada porque“distribuíam imagens do Sagrado Coração e outros signos contra‑revolucionários”. Também muitas mulheres acabaram guilhotinadas pelo único crime de “bordar as insígnias da rebelião”,isto é, o Sagrado Coração.

     Bem mais tarde, em 1870, por ocasião dos acontecimentos revolucionários da Comuna de Paris, e da derrota diante da Prússia, o bentinho foi muito usado pelos franceses. Pouco depois, uma senhora romana, quis conhecer a opinião de Pio IX a respeito. O Pontífice aprovou o objeto piedoso e afirmou: “Vou benzer este Coração, e quero que todos aqueles que forem feitos segundo esse modelo, recebam esta bênção, sem ser necessário que algum outro padre a renove. Além disso, quero que satanás de modo algum possa causar dano àqueles que trouxerem consigo o bentinho, símbolo do Coração adorável de Jesus", segundo consta do folheto Bentinho do Sagrado Coração de Jesus.

     Os mártires do Sagrado Coração

     Durante a Revolução Francesa, entre os mártires do Sagrado Coração cumpre lembrar o confessor do Rei, o sacerdote eudista Padre Hébert, martirizado no dia 2 de setembro de 1792, no chamadoMassacre do Convento do Carmo, em Paris. Muitos dos sacerdotes ali martirizados tinham consigo a imagem do Sagrado Coração (Os 191Mártires de Setembro foram beatificados por Pio XI em 1926).

     As freiras carmelitas mártires de Compiègne foram condenadas à morte e executadas em 17 de julho de 1794, por haverem distribuído a imagem do Coração de Jesus, “símbolo da Vendéia”, e também por haverem cantado um hino em louvor do Coração de Jesus. (São Pio X as beatificou em 1906.)

     Uma das vítimas do ódio revolucionário merece especial menção: a Venerável Maria Vitória Conen de Saint‑Luc, que deixou atrás de si um perfume discreto de desinteresse, fervor, pureza e elevação de atitude.
Seu pai, o Senhor Conen de Saint‑Luc, era conselheiro do Parlamento da Bretanha e irmão do Bispo de Quimper, Monsenhor de Saint‑Luc, adversário fogoso dos jansenistas e grande devoto do Sagrado Coração. Maria Vitória, junto dele e de suas mestras, as visitandinas de Rennes, aprendeu a amar o Coração de Jesus. Levava vida religiosa nas Dames de la Retraite. Quando a Revolução as dispersou, ela foi viver com as Damas do Calvário. Ali continuou a bordar as insígnias do Sagrado Coração e a distribuí‑las entre os conhecidos.

     Nos últimos dias de junho de 1792, Maria Vitória viu‑se obrigada a voltar para a casa dos pais, o Castelo de Bot. Lá continuou seu apostolado. Uma das pessoas a quem ela havia enviado insígnias era um amigo das Damas do Calvário, o médico Laroque‑Trémaria. Esse senhor mandou algumas delas a um irmão seu, que comandava um navio. As insígnias enviadas pelo Dr. Laroque‑Trémaria foram porém interceptadas pela polícia revolucionária. Quem lhe havia dado as imagens do Sagrado Coração? Respondeu o doutor: “A encantadora Maria Vitória”. Como resultado, o médico e seu irmão foram guilhotinados. Maria Vitória e seus pais foram igualmente presos em fins de 1793. Ela resistiu com grande força de alma aos rigores da prisão, animosa por estar presa pelo amor de Jesus Cristo. A jovem e seus pais foram transferidos à sinistra prisão da Conciergerie, em Paris, no dia 25 de abril de 1794.

     Em 18 de julho, o sanguinário promotor revolucionário os acusou de manterem contatos contra‑revolucionários, de terem ajudado a revolta dos “bandidos da Vendéia” e de haverem distribuído as insígnias dos revoltados. As três acusações foram aceitas. Era a morte.

     No dia seguinte, na Praça da Barreira do Trono — o mesmo local onde dois dias antes haviam sido guilhotinadas as dezesseis freiras carmelitas de Compiègne — chegou a carroça com os três condenados. Maria Vitória, de conduta fidalga até na morte, pediu licença ao carrasco para ser decapitada em primeiro lugar. Não queria que os pais receiassem que vacilasse no último instante, ou que algo acontecesse com ela após a morte deles. Abraçou‑os, ajoelhou‑se diante deles e lhes pediu a bênção. Dirigiu‑lhes então estas belas palavras: “Querido papai e querida mamãe, de vós aprendi como se deve viver; com a graça de Deus, gostaria de lhes ensinar como se deve morrer”. Subiu com firmeza os degraus do cadafalso, e a lâmina decepou o pescoço puro daquele cisne inocente e virginal. Um dia talvez poderemos honrá‑la com o título de Santa Maria Vitória de Saint‑Luc, mártir da Fé.

     Depois do martírio de Maria Vitória, as Dames de la Retraitepassaram a se chamar Religiosas de la Retraite du Sacré‑Coeur(Religiosas do Retiro do Sagrado Coração). [5]

     Contra‑Revolução sob o estandarte do Sagrado Coração

Jean Chouan com o escudo ao peito

     A insurreição das províncias do Oeste francês, contra a ditadura revolucionária, em defesa dos direitos de Deus e do Rei, que se deu entre 1791 e 1795, foi largamente colocada sob o patrocínio do Sagrado Coração. Vejamos alguns dos muitos e expressivos exemplos dessa epopéia.


     A marquesa De La Rochejaquelein, viúva de um dos chefes insurrectos, afirmou que, desde o começo da luta, todos os combatentes punham sobre si a imagem do Sagrado Coração, como símbolo de adesão à Igreja e ao Rei e de recusa às autoridades revolucionárias de Paris.

     Jacques Cathelineau  chamado, por sua piedade, o Santo do Anjou — foi homem de condição modesta, mas, por seu valor tornou‑se um dos chefes. Ao se juntar à insurreição, fez o que tantos de seus comandados faziam: colocou o rosário na cintura, o Sagrado Coração no peito, e partiu para a frente de batalha, onde pela sua coragem legendária iria se cobrir de glória e encontrar uma morte heróica. [6]

     Em 18 de abril de 1794, sete insurrectos foram condenados à morte porque, ao serem detidos, traziam consigo estampas do Sagrado Coração. Era o suficiente para a sentença dos juízes revolucionários. “Os chouans — afirmou o Presidente do Tribunal levam consigo tais estampas e combatem sob a proteção delas”. [7]

     Reação contra‑revolucionária e católica no Tirol

     Tomar o Sagrado Coração como símbolo de sua luta contra‑revolucionária não foi privilégio dos insurrectos do Oeste francês. Também no Tirol austríaco a reação camponesa de 1796, e a de 1806 a 1809, contra as hordas revolucionárias, fez‑se sob esse signo. Ali se repetiriam os exemplos heróicos dos vendeanos.

     Andreas Hofer, camponês transformado pela necessidade em soldado e chefe de guerra, consagrou seus comandados ao Coração de Jesus. No dia 24 de maio de 1809, antes de dar batalha ao inimigo ocupante do solo pátrio, diante da tropa ajoelhada à qual o capelão acabava de dar a absolvição, Hofer se levantou e prometeu, caso fosse vitorioso, consagrar o Tirol ao Coração de Jesus e celebrar como festa nacional o dia dedicado a Ele. No dia 1° de julho o Tirol foi de fato libertado das tropas invasoras. Esta festa ainda hoje é celebrada na região. Homenageando a devoção do herói tirolês, os camponeses de Passeyer, compatriotas seus, construíram perto de sua casa uma capela dedicada ao Sagrado Coração. [8]

     Heroísmo militar sob a proteção do Coração de Jesus

     Um ato de heroísmo militar não ficou simbolizado num monumento esplendoroso, nem numa parada brilhante, mas num estandarte ensangüentado e esfarrapado, um estandarte do Sagrado Coração. Um pedaço de pano emocionou a França inteira e teve um poder evocativo enorme.

     Esse feito heróico ocorreu no dia 2 de dezembro de 1870, em Loigny, na estrada de Orléans, ao cair da tarde, num momento trágico para o Exército francês, que dava batalha contra as formações alemãs. Dois regimentos franceses haviam recusado avançar, pois do outro lado troava terrível e assustadoramente o canhão prussiano. Havia a superioridade numérica, o poder de fogo arrasador e as vantagens da posição estratégica. O que fazer? Aconteceria a debandada? Fuga na confusão?

     Encontravam‑se presentes no campo de batalha dois batalhões de soldados franceses que haviam lutado em defesa do Papa Pio IX, e eram comandados pelo então Coronel Barão de Charette. Esseszuavos pontifícios, com a Pátria ameaçada, apresentaram‑se espontaneamente para defendê‑la. Foram aceitos e agrupados no regimento chamado de Voluntários do Oeste. Na sua bandeira estava bordado o Sagrado Coração.

     Nessa situação desesperadora, o General de Sonis, comandante das tropas, gritou indignado para os regimentos que não avançavam:“Pois bem, como os senhores não sabem morrer pela França, vou mandar desfraldar diante de todos a bandeira da honra. Olhai‑a, e procurai segui‑la quando passar por aqui”.

     E dirigindo‑se ao Barão de Charette, apelou: “Meu amigo, dê‑me um de seus batalhões”. E acrescentou a seguir: “Chegou a hora de desfraldar a bandeira do Sagrado Coração”.

     Então, no meio do fumo espesso, em que silvavam mortíferas as balas prussianas, sob a chuva dos obuses e o choque do canhoneio, a bandeira do Coração de Jesus, bordada pelas mãos piedosas das freiras visitandinas de Paray‑le‑Monial, com a inscrição Coração de Jesus, salvai a França, ondeou pela primeira vez num campo de batalha.

     Era ali a bandeira do regimento católico, mas representava ao mesmo tempo a bandeira da honra militar e da coragem nacional. Num gesto de altaneria militar, os Voluntários do Oeste, em agradecimento ao General de Sonis, que lhes dera o honroso encargo de ir para o ponto mais rude e perigoso da batalha, aclamaram seu comandante.

     E os Voluntários do Oeste avançaram! As tropas os observavam com espanto. Avançaram com uma galhardia e destemor arrebatadores e com uma força de impacto assustadora. Flutuava sobre eles a bandeira do Sagrado Coração, varada de balas e já empapada de sangue francês.

     Os dois regimentos, que antes haviam recusado o fogo, envergonhados, avançaram também. O General de Sonis e o Coronel de Charette se puseram à frente das tropas. Caíram logo, feridos, enquanto o combate ardia terrível e mortífero. A honra militar estava salva.

Basílica do Sagrado Coração de Jesus em Montmartre, Paris

     O gesto dosVoluntários do Oestetocou até o fundo o espírito cavalheiresco do povo francês. Uma lufada do espírito de cruzada percorreu a França contundida pela adversidade. São Luís IX, o santo Rei Cruzado, não parecia mais tão distante, perdido nas brumas da Idade Média. Aí estava a esperança.

     Coração de Jesus, salvai a França, repetiam os católicos franceses. E se lembravam emocionados do ensangüentado e esfarrapado estandarte de Loigny.

     E com ânimo renovado voltavam seus olhos e sua generosidade para o templo votivo que se planejava construir em Montmartre — e que depois efetivamente se construiu —, como uma expressão do desejo de penitência, desagravo e reatamento com um passado que nunca deveria ter sido renegado.

     ***

     As perseguições e o martírio enobreceram a recusa dos princípiosrevolucionários pelos devotos do Sagrado Coração. Não é pois de admirar que durante todo o século XIX, com repercussões no século XX, a devoção ao Coração de Jesus tenha sido um símbolo da oposição à Revolução. A oposição ao espírito da Revolução impeliu muitíssimos ao heroísmo cristão, sob a bandeira do Coração de Jesus, como vimos. Em outros, mesmo antes da Revolução Francesa, o serviço ao Coração Divino fez mais: levou ainda mais alto, à santidade.

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     NOTAS:

    [1] HAMON. Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. I, p. II. 

    [2] Esse bentinho, para ser conforme o original, deve assentar sobre baetilha branca, isto é, pano grosso de algodão. A Sagrada Congregação dos Ritos permite que se empregue indiferentemente pano branco ou vermelho. A Igreja ensina, porém, que é especialmente por meio de um grande espírito de Fé e fiel observância dos mandamentos que merecem as bênçãos e proteções de Cristo os que usarem o bentinho do Sagrado Coração.  

     [3] Apud HAMON, Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. IV, p.
307.   

    [4] HAMON, Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. IV, p. 322. 

    [5] Cf. HAMON, Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. IV, pp. 294‑321. 

    [6] HAMON, Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. IV, pp. 311‑312. 

    [7] HAMON, Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. IV p. 313.   

    [8] Cf. HAMON, Histoire de la Dévotion au Sacré‑Coeur de Jésus, t. IV, pp. 322‑324. 

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quarta-feira, 22 de abril de 2015

Orgulho ou Preconceito?

Resposta do Mosteiro da Santa Cruz à Revista VEJA
Quarta-Feira, 15 de Abril de 2015
Por Dom Tomás de Aquino


A revista VEJA publicou uma matéria sobre as controvertidas cerimônias realizadas no mosteiro da Santa Cruz (Nova Friburgo – RJ) entre as quais a de maior importância foi a sagração episcopal de Mgr Jean-Michel Faure. Esta sagração feita por Mgr Richard Williamson foi seguida da ordenação sacerdotal do Irmão André Zelaya de León, da Guatemala, monge de nosso mosteiro há mais de vinte anos. Ambas cerimônias foram apresentadas como atos de rebelião. Aliás, o título do artigo é: “Rebelião no altar”, artigo que se termina da seguinte maneira: “O francês Faure, cheio de orgulho, tem até apelido para o racha: La Resistance”. Orgulho mesmo ou preconceito da revista? Eis a questão.

Orgulho se pode tomar em dois sentidos. Ou será o senso da dignidade de sua condição como quando um filho da Santa Igreja se declara, com justo orgulho, católico, apostólico, romano. Ou será um vício, um pecado; pecado de rebelião contra Deus. O pecado de Lúcifer.
 
Talvez o autor do artigo quisesse deixar ao leitor a escolha, já que o jornalista da VEJA foi bastante cordial conosco, embora o tom geral do artigo indique de preferência o sentido de revolta. Seja como for, a pergunta permanece: orgulho de Mgr Faure, de Mgr Williamson e dos monges de Santa Cruz ou preconceito contra eles? A questão continua não respondida.
 
Retrocedamos no tempo, pois assim fazendo encontraremos o fio de Ariane  que nos tirará do labirinto em que a crise atual da Igreja nos lançou, e nos fornecerá o necessário para responder à pergunta já feita. Retrocedamos até a Reforma protestante e ao declínio do Cristianismo na Europa e no mundo. Declínio contra o qual lutaram vitoriosamente, mas só por um tempo, o Concílio de Trento e os grandes santos da Contra-Reforma. Duas forças se chocaram então e se chocam até hoje. Uma nova religião que põe o homem no centro da civilização e combate a Igreja Católica antes de combater Nosso Senhor Jesus Cristo em pessoa para terminar negando a existência de Deus, com o marxismo, e mesmo corrompendo a eterna noção de Verdade com o Modernismo, condenado por São Pio X.
 
Dois mundos, dois amores; o amor de Deus levado até o esquecimento de si, e o amor de si mesmo levado até a negação de Deus. Dois mundos, duas forças, duas correntes históricas que se opõem há mais de cinco séculos. Qual das duas é movida pelo orgulho? Eis mais do que uma pista para encontrarmos a resposta à nossa pergunta inicial.
 
Aprofundemos pois a pista já indicada e entremos na atualidade, ou melhor, na história recente da Igreja. Falemos de Vaticano II. Os Papas do século XIX e do século XX até a morte de Pio XII haviam condenado o Liberalismo Católico dos que queriam a união da Igreja com os princípios da Revolução Francesa. Não só o Liberalismo mas também o Modernismo, o Neomodernismo, o Progressismo e demais erros modernos haviam sido devidamente condenados. A Igreja Católica dizia e dirá sempre “não” a estes erros.
 
Porém o velho sonho dos mais cruéis inimigos da Igreja realizar-se-ia. Um Concílio consagraria os teólogos modernistas, liberais e progressistas. Este Concílio foi o Concílio Vaticano II. Mas dois Bispos permaneceram fiéis e denunciaram este Concílio. Mas só dois? Não é pouco demais? Para um mundo que preza mais a quantidade do que a Verdade, dois é igual a nada. Mas em questão de doutrina não é o número que conta, e as doutrinas apregoadas pelo Vaticano II já haviam sido condenadas por Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII, São Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII para citar apenas alguns da longa série de Papas que dista de São Pedro à Pio XII, os quais guardaram o depósito da Fé que lhes havia sido confiado por Deus Ele mesmo.
 
Mas o que isso tem que ver com a sagração do 19 de março de 2015 em Nova Friburgo? Isto tem tudo que ver com essa sagração, já que Mgr Williamson foi ele mesmo sagrado por estes dois bispos fiéis à Tradição bimilenar da Igreja. Estes dois bispos são Mgr Marcel Lefebvre e Mgr Antônio de Castro Mayer.
 
Contudo, eles sagraram Mgr Williamson, assim como Mgr Fellay, Mgr Tissier e Mgr de Galarreta, contra a vontade de João Paulo II em junho de 1988? Sim, é verdade. Logo eles são uns rebeldes e uns orgulhosos? Não. A verdade não se deixa encontrar tão facilmente assim. Desobedecer ao Papa pode ser, em casos extremos, um ato de virtude, enquanto que obedecê-lo pode ser, em casos extremos, um pecado. “Quem faz o mal porque lhe ordenaram, não faz ato de obediência, mas de rebelião”, diz São Bernardo.
 
A rebelião no altar não se deu em Nova Friburgo, no dia 19 de março. Se aprofundarmos a questão veremos que a rebelião no altar se deu não em Friburgo, mas em Roma desde o Concílio até hoje. 
 
Quem duvidar do que afirmamos, que estude os livros que falam da crise atual e lá verão que o próprio Cardeal Ratzinger, futuro Bento XVI, afirma que o Vaticano II foi um “contra-Syllabus”, ou seja, que ele vai o ensinamento do Magistério da Igreja, contra uma doutrina já definida pelos Papas anteriores.
 
Não! Mgr Faure não falou com orgulho, ou melhor, falou com justo orgulho de defender este Magistério infalível da Igreja contra os erros de Vaticano II. Mas como um Concílio pode ensinar erros? Eis a grande pergunta. Leiam pois as obras de Mgr Marcel Lefebvre. Estudem, aprofundem-se na Fé, pois o mal é grande e a abominação da desolação foi posta no lugar santo. Portanto, a revolta no altar não está no mosteiro da Santa Cruz. A revolta no altar está – é triste repeti-lo – no Vaticano.
 
Mas quem nos crerá? Orgulho nosso ou preconceito da VEJA? Só estudando. Só rezando. Sem oração e estudo ninguém poderá encontrar a resposta. Ela está ao alcance de quem a procura, mas antes de tudo é preciso procurá-la. O que já dissemos é o suficiente por ora. Agora, caro leitor, lhe cabe a sua parte, caso deseje tirar a limpo se é orgulho nosso ou preconceito da VEJA chamar-nos de rebeldes. Bom trabalho.
 

terça-feira, 14 de abril de 2015

FOTOS: Visita Episcopal - Monsenhor Faure - Missões Católicas Cristo Rei / Minas Gerais

"Nós queremos permanecer apegados a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ora, o Vaticano II descoroou Nosso Senhor. Nós queremos ficar fiéis à Nosso Senhor, Rei, Príncipe e Dominador do mundo inteiro. Nós não podemos mudar nada nesta linha de conduta." 
-Monsenhor Marcel Lefebvre

*Clique para ampliar:


Chegada, sexta-feira (10/04/2015)




Capela Cristo Rei, Ipatinga, sábado (11/04/2015)







Cerimônia do Santo Crisma



















































































































Santa Missa








































































Conferência
























































Jantar




































Viagem a João Monlevade (12/04/2015)





Missão Sagrados Corações













Santa Missa



























Conferência










Almoço













Obrigado, Monsenhor!